sexta-feira, janeiro 27, 2006

«O desejo de ser inútil», de Hugo Pratt e Dominique Petitfaux

No final do ano passado, a Relógio d’Água lançou no mercado a versão portuguesa de um livro que os amantes de BD há muito conheciam na versão original. Trata-se de uma longa entrevista com um dos mais geniais criadores de banda desenhada, o italiano Hugo Pratt, que alcançou fama mundial com a personagem Corto Maltese, mas cuja obra é muito mais vasta e variada.
Pratt nasceu em Julho de 1927, filho de uma mistura de civilizações e raças: franco-ingleses, judeus-espanhóis e turcos. Além disso, durante a vida, “que começou bem antes de vir ao mundo e imagino que prosseguirá sem mim por muito tempo”, Pratt não parou, passando por locais tão díspares como a Etiópia e a Argentina, a sua natal Itália e o Canadá, o Brasil e a América Central. Parafraseando o Captain Renault, em “Casablanca”, pode dizer-se que “isso faz de Pratt um cidadão do Mundo”. Quem conhece minimamente o seu legado artístico, sabe muito bem das múltiplas influências que o autor espelhava nos seus livros e quadros. Na verdade, Corto Maltese quase era Hugo Pratt.
A longa entrevista, com quase três centenas de páginas, constitui uma leitura rica e agradável, ilustrada por inúmeras fotografias e desenhos. O livro está dividido em duas grandes secções: “Sob o signo do gato” e “Sete portas para um Universo”. Grosso Modo, a primeira corresponde ao homem, a segunda ao artista.
Pratt fala de tudo: dos pais, dos familiares, da religião, da escola, de como, ainda cedo, descobriu o seu talento natural para o desenho e o apoio que recebia da avó (p.30), a descoberta do sexo na Etiópia (p.43), o regresso a Itália e a passagem fugaz pelo exército nazi (p.78), a ida para a Argentina (p.97) onde deu largas à sua paixão por retratar faces e corpos em pequenos cadernos, a passagem por Inglaterra (p.114), o regresso à Europa e a chegada da fama. Curiosa a sua viagem a Angola, a convite do MPLA (pag. 153).
Bem mais interessante é o ponto de vista de Hugo Pratt enquanto criador e artista. Para desvendar o universo de Pratt há que abrir sete portas. São elas, sucessivamente, “a viagem do peregrino”, “cultura e culturas”, “uma educação esotérica”, “mitos e metafísica”, “um mundo no feminino”, “heróis e guerreiros” e, finalmente, “o desejo de ser inútil”. Ao longo desta parte da entrevista, Pratt vai desfiando aquilo que considera ser a alma da sua obra: o que é que o motivava, o que é que o chamava, o que é que o fez ser o homem que era, o que é queria transmitir ao leitor. Daí que chame peregrinações às suas viagens, já que sentia “necessidade de ir aos lugares que estão associados ao meu mundo interior” (p.190). Porquê? “Pelo desejo de confirmar, de prestar homenagem, e pela minha educação romântica”. A cultura era importantíssima, mas Pratt, um poliglota, mostrava uma concepção própria, o que o levava a falar de termos como “cultura erudita” e “cultura militar”: “alguém que seja culto é necessariamente eclético: se apenas conhece o universo cultural a que pertence Klingsor ou só aquele a que pertence King Kong, não é verdadeiramente culto”(p.201). Como parece claro, no fundo, Pratt defendia que cada homem deveria ter uma cultura humanista, onde a abrangência fosse regra. Absolutamente fascinante é a sua deambulação pelo mundo esotérico, quando confessa abertamente que se divertiu a ouvir Paulo VI a falar sobre o Diabo, contra os Doutores da Igreja…"sempre pensei que a par do mundo directamente decifrável existia um mundo oculto”(p.220). Daí, claro está, a aproximação de muitas das suas personagens a um certo mundo mágico e, até, de feitiçaria. Aliás, Pratt era perito na cabala e sabia umas coisas de voodu, e é sabida a sua proximidade com a maçonaria, bem espelhada em “Fábula de Veneza”. Na sequência disso, o autor sempre demonstrou estar mais perto de uma percepção do mundo com passagem obrigatória pelos mitos e simbologias, do que de uma qualquer “porta” religiosa.
Já perto do fim da entrevista, Hugo Pratt aborda a vexata quaestio de saber onde é que se coloca, culturalmente, a banda desenhada. A sua resposta é lapidar, típica de quem nada tem a temer e sabe muito bem o chão que pisa: “A banda desenhada é um género ainda em geral desconhecido dos intelectuais, pois para muitos deles não faz parte da verdadeira cultura: consideram que só faz parte da cultura o que é reconhecido como tal e ensinado pela universidade”. O problema estava, e, se calhar, ainda está, no “conformismo” (p.287). A terminar:
P-Referiu que as palavras do seu pai, quando lhe ofereceu “A Ilha do Tesouro” de Stevenson, foram: «Também tu, um dia, acharás a tua ilha do tesouro». Para concluir estas conversas, gostaria de lhe perguntar se efectivamente a encontrou. Parece-me que sim…
R-O meu pai tinha razão, eu achei a minha ilha do tesouro. Achei-a no meu mundo interior, nos meus encontros, no meu trabalho. Passar a minha vida com um mundo imaginário foi a minha ilha do tesouro. Claro, é verdade que os mundos que eu visito ao sabor das minhas buscas podem por vezes ser julgados pueris ou inúteis, tão distantes se acham das preocupações quotidianas, mas quando hoje penso naqueles que me acusavam de ser inútil, e no que eles julgavam ser útil, então, perante eles, não tenho apenas o prazer de ser inútil, mas também o desejo de ser inútil.
O desejo de ser inútil não se concretizou. Felizmente. O que sobrou foi uma existência recheada de leituras, viagens, amigos, desenhos. Uma vida pouco comum e, precisamente por isso, de conhecimento obrigatório. Tal qual a leitura deste registo biográfico de alguém que era larger than life.
Dupont