segunda-feira, janeiro 30, 2006

Retrospectiva David Cronenberg na Cinemateca

A Cinemateca Nacional dá hoje início a um ciclo de cinema dedicado a um dos mais extraordinários realizadores do cinema contemporâneo: David Cronenberg.
Ao contrário da maior parte dos seus colegas que fazem aquilo que lhes é proposto, Cronenberg sempre esteve um pouco ao lado do establishment de Hollywood. Andou lá, por vezes, mas jamais se deixou influenciar ou moldar pelo gosto reinante.
E foi assim, com independência artística, que o realizador construiu uma carreira assente numa visão muito própria, embora se aceite que sempre se moveu nos domínios da ficção científica e do terror. E foi nesta área que ele expôs a sua perspectiva sobre o corpo humano.
Para Cronenberg, o corpo humano não está limitado àquilo que dele conhecemos e não nasce, apenas, no primeiro dia da vida de cada um. Há muito por descobrir, e uma das principais portas ainda não abertas é a da fusão entre a carne e o metal, entre o corpo e a tecnologia. Um rápido passeio pelo essencial da sua cinematografia leva-nos a alicerçar, ainda mais, esta convicção.
Comecemos com “Rabid”, de 1976, onde a personagem principal, interpretada pela actriz-porno Marilyn Chambers (pormenor de enorme significado…), é vítima de uma operação cirúrgica, renascendo dela como vampira… Seguiu-se “Scanners”(1981), com a famosa imagem iconográfica de uma cabeça a explodir, onde os duelos não são entre corpos, mas entre mentes, através de telepatas. De Videodrome(1983) toda a gente se recordará da cena em que James Woods retira uma cassete VHS da barriga, num filme sobre os efeitos, físicos, da exposição do ser humano à televisão. Em 1986 apresenta o que será o seu filme mais famoso, “A Mosca”, onde assistimos à fusão molecular de uma mosca com um ser humano, com devastadoras e horríveis consequências. Surge, depois, o meu favorito, “Irmãos Inseparáveis/Dead Ringers”(1988), onde um soberbo Jeremy Irons dá vida a dois irmãos gémeos com uma ligação entre si que ultrapassa qualquer explicação.
Depois, Cronenberg passa para o ecran a obra de William Burroughs “O Festim Nu” para, em seguida, adaptar “M.Butterfly”. Mas, após estas experiências mais fora do seu ambiente, volta em força com o brilhante “Crash”, contando a história de um grupo de pessoas vítimas de acidentes de viação, mas com um desejo sexual, fetichista, por carros acidentados. Surge, depois, “eXistenZ”, onde o ser humano se funde com as consolas de jogos e, já em 2002, apresenta “Spider”, onde Ralph Fiennes tem problemas com as suas memórias.
Como se pode comprovar, a relação de Cronenberg com as transformações, físicas e mentais, do corpo humano são uma constante. O sexo está quase sempre presente, quase nunca como procriação, mas sim como plataforma para uma sensibilidade mais alta. Daí que a família de personagens cronenberguianos esteja sempre disposta a aceitar modificações, psicológicas ou físicas, na esperança de alcançar um estado de felicidade e plenitude para além da mera condição humana. Daí que a genética, a tecnologia médico-científica estejam sempre presentes, como instrumentos indispensáveis para tal fim. A sociedade, composta por “corpos” está em mudança, não só porque faz com que os seus elementos mudem, como igualmente são estes que, por vezes, a levam a divergir o curso tomado.
Obviamente que acumulando uma obra tão rica e, ao mesmo tempo, tão tematicamente homogénea, David Cronenberg é hoje olhado como um “autor”, no sentido que os Cahiers du Cinema deram à palavra no contexto cinematográfico. O que é inteirmanete merecido.
Depois de Michael Cimino, a Cinemateca vira-se, agora, para um verdadeiro criador de cinema. A não perder, não fosse a iniciativa decorrer trezentos e tal quilómetros a sul…
Dupont