segunda-feira, fevereiro 27, 2006

«Capote/Capote», de Bennett Miller

Ao contrário do que se possa pensar, este filme não tem como objectivo oferecer ao espectador a biografia do escritor norte-americano Truman Capote. O que nos é mostrado é todo o processo criativo do seu livro “A Sangue Frio/In Cold Blood” e o reflexo desse trabalho na própria vida do escritor.
Truman é uma personagem da sociedade nova-iorquina. Afectado nos gestos, efeminado na pose ele é o rei da high-life americana, convivendo com escritores, gente do cinema e das artes. Ele é alguém que adora ser adulado, que gosta de se tornar o centro das atenções em conversas, que despreza todos os que não se identificam com o seu estilo de vida.
Um dia, Capote lê no New York Times a notícia do assassinato de uma família inteira, numa pequena povoação do Kansas. No mesmo dia, telefona ao editor da revista “New Yorker” e propõe-lhe escrever sobre esse tema. Uma vez lá, começa a compilar material para o seu trabalho: conversa com os habitantes locais, cai nas boas graças da mulher do Procurador, consegue tudo o que quer. E mesmo quando os dois assassinos são detidos, Capote tem acesso privilegiado aos mesmos, além de lhes arranjar advogados decentes. Só que o escritor não faz isto por bondade. O que efectivamente o move é o egoísmo de conseguir a história. Daí que, quase seis anos depois do tiro de partida, Capote ainda não tenha o livro pronto e sinta vontade que os dois assassinos morram rapidamente para ele por um fim no seu…sofrimento.
Esta manipulação atinge a perfeição no relacionamento do escritor com o elemento principal do par de assassinos, Perry Smith. Entre ambos nasce algo mais profundo do que uma amizade, podendo vislumbrar-se um jogo homoerótico, em que os bens entre ambos trocados serão a esperança e a verdade. O condenado agarra-se a Capote como a sua única salvação, mental e física, e o escritor quer recolher dele o maior número de dados possível. No fundo, Truman apenas lhe quer sugar essa informação e isso atravessa todo o filme, até ao momento em que é convidado para assistir à execução e aceita.



“Capote” não é só um filme sobre a construção de um episódio literário americano, é também o retrato do fosso social e cultural entre a sofisticação decadente de Nova Iorque e a América profunda, simples e religiosa, um fosso que o tempo não curou, com se pôde ver nas eleições presidenciais americanas. No final, Capote atinge a redenção, após, finalmente, perceber que o que era efectivamente importante não era o seu vício de fama ou os amigos aduladores, mas os sentimentos humanos puros. E aprende-o “a sangue frio”…
A composição de Philip Seymour Hoffman é soberba. O actor vestiu mesmo a pele do escritor e compõe uma personagem absolutamente notável, quase lhe garantindo o Óscar. A realização é pouco ágil, atendendo ao tipo de filme em causa, muito embora se mostre segura e sem nunca ultrapassar a fronteira do bom gosto, embora o argumento o proporcionasse. Excelente, ainda, a reconstrução de uma América típica dos anos 50 e a opção por pouco colorir a maior parte das cenas, o que proporciona uma belíssima percepção melancólica de toda a história.
Parece que, este ano, temos um leque de excelentes propostas na corrida aos Óscares. Aguardemos o resultado, que já falta pouco.
Dupont