quarta-feira, fevereiro 15, 2006

Cinema Paraíso

Há uns dias ouvi o Álvaro Costa numa conversa com mais dois locutores de rádio. Julgo que era na Rádio Nova. A certa altura, o nosso conterrâneo resolve fazer uma visita a alguns quadros do passado, nomeadamente ao que se passava nas salas de espectáculo há vinte e trinta anos atrás.
É claro que ir ao cinema, nessa altura, era quase um ritual. O Foco e o Lumiére eram mais modernos, o Trindade (sempre foi a minha sala preferida – talvez pela cómoda proximidade com a estação de comboios da Linha da Póvoa…), o Coliseu e o Batalha eram clássicos. Ainda consegui ir ao Águia de Ouro e ao Olímpia. No primeiro foi ver um dos “Amityville” e, no segundo, um filme-documentário que estava na moda no início dos anos 80, sobre coisas escabrosas passadas nos EUA, como pobres a dormir nos esgotos nova-iorquinos e loucuras com automóveis. Uma parvoíce, é claro. Também fui uma vez ao Sá da Bandeira, no costumeiro ritual de iniciação. Nunca entrei no Júlio Dinis.
Mas Álvaro Costa falou também de uma coisa que, a mim, que nem tomo café, sempre me causara tremenda impressão: o facto de nos cinemas do Porto servirem, sempre, café de saco. É que era mesmo assim: no Batalha ou na Sala Bebé, no Coliseu e no Passos Manuel, até no Foco e nos Lumiére, o café nunca era “expresso”. Mesmo no Póvoa-Cine, no Garrett ou no nosso Cine-Neiva não havia alternativa. Aquilo metia-me uma certa impressão, porque me parecia que só com muita bonomia se poderia ingerir aquilo que parecia mais uma mixórdia do que propriamente uma infusão derivada dos frutos secos e torrados do cafezeiro… Aquela conversa fez ressuscitar outros pormenores, que já me esquecera e que, na verdade, estão para sempre perdidos, como aqueles maravilhoso chocolates, enfiados em tubinho em vez de tablete. Creio que eram da Regina. Nunca mais os vi. Eram bastante requisitados porque nem sempre havia dinheiro para todos nós podermos comprar chocolates, e, como já vinham separados e embrulhados, eram fácil dividir por todos, sem ninguém sujar as mãos – M&Ms eat that!
Hoje, chocolates são apenas os da Nestlé. Pipocas são muitas e caras, regadas a Coca-Cola, 7UP ou Fanta. Quanto a café, nem vê-lo. Até porque como as salas estão inseridas em centros comerciais e não há intervalos nos filmes, a coisa não se justifica. A qualidade de projecção e visionamento é muito melhor, mas faltam todos aqueles pequenos pormenores que marcavam a diferença e nos faziam desejar ir ao cinema não só pelo filme, mas também por aquela coisa intraduzível que estava à volta e que fazia de cada visita um verdadeiro acontecimento.
Quem quiser matar algumas saudades, pode ir até Cinemas do Porto.
Dupont