quinta-feira, fevereiro 09, 2006

«Depeche Mode Live in Lisbon»



Com lotação há muito esgotada, o Pavilhão Atlântico recebeu, ontem, os Depeche Mode, numa das etapas do “Touring the Angel”, a digressão de suporte ao álbum “Playing the Angel”. Lá estivemos, confiorme havíamos aqui prometido.
Horas antes da abertura das portas, já os elementos da tribo lusa dos DM por lá andavam, vestidos a rigor – isto é, de preto da cabeça aos pés – prontos para a “black celebration” que sempre é um concerto da banda. Só mais tarde a coisa se normalizaria… Curiosa foi a entrada no pavilhão, bem mais fácil do que aceder, por exemplo, ao interior do Estádio do Dragão. Ninguém revistou ninguém, não houve proibição de nada e, apesar de se passar por três zonas de controlo, apenas uma vez o bilhete foi efectivamente verificado, através da leitura do código de barras. E não houve registo de problemas.
Pouco passava das 20.30 quando a banda de suporte, os nova-iorquinos The Bravery, subiram ao palco. A banda produz um som interessante, mexendo-se em sonoridades próximas dos compatriotas The Killers ou dos The Strokes. Uma actuação inspirada, com bastante força e empenho, que agarrou o ainda pouco público presente, em especial o hit “An Honest Mistake”.
Colocado no “Balcão 1” tinha uma excelente visão do palco e da plateia, num ponto de vista muito semelhante ao do da imagens intermédia que aqui mostramos, “surripada” ao site do fan-clube português e respeitantes ao concerto no "Velodrom", de Berlin. As restantes são do site oficial e dizem repeito a um concerto em Tampa, à primeira vista, em tudo idêntico ao de Lisboa. Entretanto, para colorir a noite, à minha frente aterrou um duo que logo foi rotulado de “Teresa & Helena versão Depeche Mode”. Não foram discretas e ainda bem…
Meia-hora depois dos The Bravery, chegaram as estrelas da noite, já com o Pavilhão Atlântico cheio como um ovo, expressão que ganha um significado especial se atendermos à configuração do espaço. “A pain that I’m used to” e John The Revellator”, precisamente a primeira e segunda faixas de “Playing the Angel” abriram a noite. O cenário estava muito bem conseguido, envolvendo uma série de écrans onde iam passando imagens, gravadas e do próprio concerto. Não foi a ZooTV, mas o fantasma dos U2 andou por ali, até porque do lado esquerdo do palco aparecia, suspensa, uma estrutura ovalóide, a lembrar o ovo da tournée “Pop Mart”… Por outro lado, a disposição e própria apresentação dos teclados remetia para os Kraftwerk, de quem se ouviu algumas músicas no tempo morto entre concertos. Enfim, influências que só dignificam.



Seguiu-se o primeiro grande momento da noite, o que voltaria a acontecer sempre que a banda revisitava os seus clássicos: “A Question of Time”. Apareceu “Policy of Truth” e voltou-se a “Playing the Angel” com o hit “Precious” e o novo single “Suffers Well”, intercalados por um dos melhores momentos da noite: “Walking in My Shoes”. Era tempo de acalmar as hostes e Dave Gahan cedeu a liderança do concerto a Martin Gore, que cantou “Damaged People” e “Home”. Gahan voltaria para “Sometimes” e “The sinner in me”, a melhor música do último álbum, traduzido num outro enorme momento, com o vocalista a dar um verdadeiro espectáculo on his own. Até ao fim seguiram-se cinco temas incontornáveis, numa interpretação imparável e sempre em crescendo: “I Feel You”, “Behind the Wheel”, “World in my Eyes”, “Personal Jesus” e “Enjoy the Silence”. Neste último, Dave Gahan entregou a vocalização ao público, que não regateou a oferta, unindo-se todos os fans ali presentes numa só voz .
Chegou o primeiro encore e logo com uma novidade: Martin Gore sozinho, apenas acompanhado ao piano, canta “Shake the Disease”. Como se pode ver no site da banda, é raro tal acontecer. Seguiu-se o clássico dos clássicos, o primeiro single que comprei na minha vida, “Just can’t get enough”, repetido ad nauseam, fechando com “Everything Counts”. Para o segundo encore tivemos “Never let me Down”, um momento mágico em qualquer concerto dos Depeche Mode: todo o público de braços no ar, acenando vigorosamente de um lado para o outro, seguindo as ordens do mestre-de-cerimónias, Dave Gahan. De onde eu estava, a visão era de arrepiar, já que além de ser ver todo o pavilhão em movimento sincronizado de braços, a vista para a plateia era assombrosa, dando novo significado à expressão “mar de gente”. O concerto terminaria logo depois, com “Goodnight Lovers” e Gahan e Gore abraçados. Talvez o machado de guerra esteja, definitivamente, enterrado…



O único senão, e isto ao nível estritamente pessoal, é que não houve grandes novidades. Conheço de cor e salteado os concertos já editados, como o “101”, o “Devotional” e, especialmente, o fabuloso “One night in Paris”, registado aquando da tour “Devotional”. A conclusão é que as coreografias de David Gahan são as mesmas e até as versões da maior parte das músicas mantêm-se inalteráveis. Bem sei que a idade não perdoa, e David já não tem a agilidade de outrora, muito embora continue em excelente forma – mas, agora, só temos um esboço das voltas sobre si próprio com o tripé do microfone em “A Question of Time” ou uns curtos segundos da autêntica aula de aeróbica em que se transforma “Never Let Me Down”. Se calhar deveria tê-los visto nas Antas, há treze anos, quando a frescura era outra…A deles e a minha, diga-se…
De qualquer forma, foi uma noite memorável e inesquecível. Pelo menos até 28 de Julho, data em que os Depeche Mode regressam a Portugal, ao estádio Alvalade XXI.
Dupont