terça-feira, fevereiro 07, 2006

Dos nossos leitores

Antes da questão essencial que coloca no seu post gostava de lembrar a origem do nome do grupo “Setembro Negro”. Tomar conhecimento da sua etimologia é contactar com a tragédia em que o povo palestiniano mergulhou desde que a comunidade internacional decidiu fechar os olhos à criação do estado Israelita. Setembro Negro refere-se a Setembro de 1970, altura em que, sintetizando, foram mortos milhares de palestinianos por ordens do há pouco desaparecido Hussein da Jordânia, isto é, um árabe que mandou executar outros. A luta deste povo confesso que me fascina pela sua tenacidade e perseverança, na maior parte das vezes completamente entregue a si próprio. Vejo por vezes algo de fado luso nesta história. Não fora as acções de extremistas, cujas acções pouco ou nada a favorece, e a sua causa arregimentaria, estou em crer, muitos mais apoiantes.

Para lá do filme, que não pude ainda visionar, interessa-me a questão da justiça e da vingança. Pode haver verdadeira justiça num acto de vingança? Quer para os indivíduos quer para os Estados existem leis que deviam regular as suas actuações, quando estes são vitimas. Para que existem então elas? Para que não se caia na “terra de ninguém “ , onde, sem balizas que pautem as acções de retaliação, se caia na violência que se reproduz a si mesma de forma imparável, exponencial.
Há também a questão da legitimidade. Usar em espelho as armas e os métodos dos agressores não é seguramente a forma de a alcançar. Como muitas vezes acontece, e aconteceu na sequência trágica dos acontecimentos de Munique, para se estender o braço vingativo a todos os envolvidos, acaba por se derrubar vidas de infelizes a quem só se lhes pode apontar o erro de estarem onde não deviam, se queriam continuar vivos. A resposta cínica de que as vitimas dos atentados também eram inocentes não branqueia os enganos. Um Estado democrático, seja ele qual for, alicerça-se no cumprimento e em fazer cumprir a lei. Ao abdicar dela põe-se no mesmo plano que os fora-da-lei.

O terrorismo é uma besta cega nutrida pela violência, pela exclusão, pelo fundamentalismo mas, sobretudo, pela ausência de esperança. Creio que para a maior parte dos seres humanos que conheço pessoalmente não há 7 ou 7000 virgens no céu mais apelativas que o conforto da tepidez duma só mulher, virgem ou não, mas de carne e osso. Alegorias à parte, fazer acreditar que é possível viver de forma digna é o melhor programa anti-terrorista que se poderá implantar.

por Deep Throat
Comentário inserido no post "Munique"
Dupont