quarta-feira, fevereiro 01, 2006

«Memórias de uma Gueixa/Memoirs of a Geisha», de Rob Marshall

O Oriente sempre foi alvo de admiração e fascínio. São costumes, vivências, formas encarar o mundo completamente diferentes das ocidentais e que provocam curiosidade e assombro. O conceito de “geisha”[que significa ‘artista’], por exemplo, é algo que nos ultrapassa, uma vez que as vemos como prostitutas, uma visão rejeitada no Japão.
A história começa numa noite de temporal, quando duas irmãs são enfiadas numa carroça e despachadas para a cidade. Uma vez ali, a mais nova, Chiyo, é aceite numa casa de geishas, enquanto a outra, rejeitada, acaba por ir parar ao bairro de prostituição da cidade. Chiyo revela-se uma criança meiga mas revoltada. Aprisionada e infeliz, vive o dia a dia como empregada de casa. Um dia, na rua, um homem oferece-lhe gelados, e deixa-lhe o seu lenço, gestos que haveriam de lhe modificar a vida. A partir daí, contra a inveja das rivais, Chiyo dedica-se ao aperfeiçoamento pessoal, na esperança de vir a ser geisha. Coma a ajuda preciosa de uma outra gheisa já retirada, Mameha, aprende tudo sobre “um mundo que sobrevive com segredos”. E não só o consegue como se torna em Sayuri, a geisha mais disputada de sempre. É então que volta a encontrar o homem por quem se havia apaixonado, desconhecendo se ele sabe quem ela é. As tentativas de aproximação são várias, mas saem todas goradas. Um dia chega a Guerra, e Sayuri tem de fugir para longe. Anos depois, voltando a ser geisha, reencontra o seu eterno amor, acabando ambos por se declararem um ao outro.
O filme começa de forma extremamente violenta, com duas crianças a serem arrastadas da cama e atiradas para a vida. A metáfora com o ventre materno e o momento do nascimento é óbvia. O destino das crianças é terrível e nem é bom pensar o que se diria se esta história se passasse no Ocidente e entre protagonistas caucasianos… O certo é que a miúda fica submetida a um mundo que não lhe oferece opções, o que, aliás, vem na tradição da escola de geishas. Porque se há coisa que aprendem é que ser geisha implica o abandono da vontade própria e a renúncia ao amor: “Uma geisha não é livre de amar”, diz-lhe a Mãe, a preceptora da escola.
Esta vida de semi-escravidão, mesmo para a época, era algo de absurdo. A cena em que se leiloa a virgindade de Sayuri é arrepiante, pelo choque cultural em jogo. Confesso que me custa entender como é que não se pode olhar para as geishas e não as considerar prostitutas. É que, como diz um amigo meu, a pessoa mais pragmática que conheço, “ou se é puta, ou se não é; não há meias-putas…” E, efectivamente, dar o corpo por dinheiro, no meu dicionário, é e será prostituição. Mas, enfim, o que nos separa é muito mais do que a mera distância geográfica.



“Memórias de uma Geisha” poderia ter sido um grande filme. Steven Spielberg esteve agendado para fazer a versão cinematográfica do bestseller de Arthur Golden, mas acabou por ser Rob Marshall a fazê-lo. Relembremos que este realizador apenas ostentava na sua folha de registo um dos piores filmes de sempre a receber o Óscar: “Chicago”. Pelos vistos, desde então, Marshall pouco melhorou. Na direcção de actores a coisa ainda escapa, muito por “culpa” de um naipe excelente de intérpretes onde se destacam Gong Li e Michelle Yeoh (ambas chinesas…) e o japonês Ken Watanabe, todos bem conhecidos no Ocidente. O pior é a cinematografia… Marshall, qual americano que nunca saiu do seu país, ficou deslumbrado com as cores e ambientes nipónicos. Vai daí e perde-se a mostrar as belezas locais, a luxúria da seda, o exotismo de um combate de sumo, o marulhar da água numa cascata, a serenidade dos jardins… É bonito, sem dúvida, mas mais adequado ao National Geographic Channell… Porque é suposto estas virtudes paisagísticas e cromáticas servirem como cenário à acção das personagens e não o inverso, que é o que acontece. Basta pensar em Woody Allen, por exemplo, e lembrarmos como ele mostra Nova Iorque e, agora, Londres, para ver como se pode exibir a beleza de uma cidade, ou de uma paisagem, não as destacando perante as personagens, mas criando um todo homogéneo com esses ingredientes… Depois, como se não bastasse, a montagem é lenta, mesmo para cenas que não o deveriam ser. Tudo isto torna “Memórias de uma Geisha” um filme com um andamento arrastado, que jamais consegue agarrar o espectador. É preciso um certo esforço e boa vontade para acreditar na história, até porque, tal como o mundo das geishas, também o bom cinema é feito de subtilezas e subentendidos, coisa que está muito longe da capacidade de Rob Marshall.
Mesmo assim, conseguiu seis nomeações para o Óscar, entre as quais, claro está, a de “Melhor Cinematografia”, uma estatueta que costuma ser atribuída a postais ilustrados e não a quem faz da cinematografia uma arte... Lembram-se do admirável trabalho de Eduardo Serra em “Rapariga com Brinco de Pérola”? Nesse ano, o vencedor foi Russell Boyd por “O Lado Longíquo do Mundo”, com impressionantes imagens marítimas e famtásticos planos das ilhas Galápagos…
Dupont