terça-feira, fevereiro 21, 2006

«O Rei e o Vale Encantado» ou o elogio da metáfora

Era uma vez, num belo país não muito distante, um rei que governava há já muitos anos. Com mão de ferro ia afastando todos aqueles que ansiavam um dia sucedê-lo no trono. O que é certo é que apesar de tudo o seu povo apoiava-o. Regularmente a população dava sinais de apoio, e portanto o rei via o seu ego crescer tão depressa quanto o seu poder.
Não era um país perfeito o deste rei, mas também não se pode dizer que fosse dos piores. Por um lado, nenhuma das casas tinha quarto de banho, e os súbditos tinham que conter as necessidades fisiológicas de modo a não poluir o seu país.
Muitos deles levavam esta ideia de tal maneira a sério que nasciam e morriam oitenta anos (e muitos quilos) mais tarde sem necessitarem de esvaziar a bexiga ou o intestino. Como conseguiam? Não sei, apenas sou um narrador de um conto infantil. Por outro lado, e talvez por esta capacidade retentora dos seus habitantes, o país tinha uma aparência asseada e até já recebera alguns prémios do mundo da imaginação onde ele se situava.
O grande tesouro não se encontrava nos cofres do grande palácio, estes estavam apenas cheios de ar, e as dívidas acumulavam-se tal como em muitos outros países de dimensão semelhante. O grande tesouro da nação era o Vale Encantado. Por essa razão é que o nome do país era País do Vale Encantado, e não por uma mera coincidência. O Vale Encantado possuía ribeiros de água límpida e pássaros que cantavam Mozart mesmo nos anos em que não se comemorava o seu Jubileu. O Vale Encantado possuía enormes florestas e uma aragem a maresia que o tornavam único. Pelo Vale Encantado as areias eram de ouro e a luz desenhava sombras de magia infindável.
O problema do Vale Encantado é que o Rei do País do Vale Encantado não lhe reconhecia valor. Existia uma grande cobiça de muitos nobres que queriam lá construir palácios e fundir as areias até se transformarem em lingotes de ouro. Por tudo isto era normal que o rei visse no Vale Encantado uma solução para os cofres vazios da nação.
Porém, muitas vozes do seu povo se levantaram, defendendo o Vale Encantado porque se o país se chamava País do Vale Encantado, então o vale era de todo povo.
Foi aí que o rei começou a pensar. Em breve existiriam umas cortes e o povo estaria atento, e antes que existisse uma revolução republicana decidiu convocar os druidas para definirem um futuro para o Vale Encantado. Muitos nobres acharam que este chamamento era uma traição, primeiro deviam estar os amigos e só depois os sábios, mas o povo ficou contente e reviu-se mais uma vez na opção do rei.
Os druidas estudaram bem o Vale Encantado e todos os meses reuniam com o rei para lhe mostrar os avanços da investigação. Pouco tempo depois descobriram a receita da poção mágica que salvaria o Vale Encantado.
O rei quis vê-la e disse que um mês depois seria feita uma nova reunião para todos beberem a mágica poção. Passou um mês e o rei passeou incólume pelas cortes sem quaisquer indícios de revolução republicana.
Passaram dois meses, três, quatro e a poção foi confundida com águas de bacalhau. O Vale Encantado ficou à espera, mas o rei nunca mais se lembrou dele. O povo? Parece ter memória tão curta quanto o rei.
Por Miguel Torres, Terras do Ave.
Dupont