segunda-feira, fevereiro 20, 2006

«O segredo de Brokeback Mountain/ Brokeback Mountain», de Ang Lee

A fanfarra que anunciou a chegada do filme-sensação da temporada e principal candidato para arrebanhar os Óscares deste ano, “O segredo de Brokeback Mountain”, fez com que quase todos soubessem o argumento mesmo sem ver o filme.
Ennis del Mar e Jack Twist são dois jovens à procura de emprego. Ambos concorrem a duas vagas existentes num rancho, para acompanharem, pelas montanhas, um rebanho de centenas de ovelhas. Sozinhos, acabam por se apaixonar um pelo outro. E esta paixão irá permanecer viva durante as décadas seguintes, muito embora eles casem com mulher, tenham filhos e a vida de cada um tenha seguido caminhos completamente distintos.
Os dois amantes, Ennis del Mar e Jack Twist, são diferentes em quase tudo. O primeiro é reservado, pouco falador e pouco ambicioso. Já o segundo é mais extrovertido, mais conversador e sociável. No entanto, apesar da paixão correr forte nas veias de ambos, sente-se mais em Ennis do que em Jack. O primeiro talvez ame desmesuradamente o segundo, mas custa-lhe admitir isso e jamais consegue ceder à ideia de ambos viverem juntos. Pelo contrário, Jack está disposto a tudo ceder para viver com o homem por quem está apaixonado.
Para perceber “O segredo de Brokeback Mountain” é obrigatório conhecer as características do cenário em que a acção decorre. O tempo é a década de 60 e o local é uma smalltown situada no estado de Wyoming. Estamos, portanto, na América profunda, povoada de hillbillies e rednecks. Eram e são comunidades extremamente conservadoras, onde à mulher está relegado um papel subalterno na família e na sociedade. Aliás, a mulher de Ennis descobre a relação e continua a viver com o marido… A homossexualidade nem sequer é falada, quanto mais tolerada.
Muito anos antes, quando Ennis tinha nove anos, o seu pai levou-o a ver um espectáculo grotesco: dois homossexuais assassinados, com os órgãos genitais enfiados na boca. Aquela visão claramente que traumatizou o miúdo, para sempre, até porque suspeita que terá sido o próprio pai o autor da proeza... Desde então, a repressão por aquilo que sentia no seu interior, acaba por o atirar para atrozes e inultrapassáveis dilemas morais. Depois de fazerem amor pela primeira vez, Ennis diz a Jack “I’m not queer”. E o outro responde “Neither am I”. Ou seja, teriam de manter as aparências.



O melodrama centra-se, precisamente, neste ponto, no amor impossível entre os dois. Já tínhamos visto esta temática entre amantes com religiões diferentes, com estatutos sociais incompatíveis ou com diferenças culturais intransponíveis. Em “O Segredo de Brokeback Mountain”, a impossibilidade está ligada à homossexualidade.
E é assim, entre mentira, fugas e escapadelas, que os dois vão construindo uma relação fortíssima, muito embora apenas se encontrem uma ou outra vez no ano. Mas, como confessam, passam todo o outro tempo a pensar naqueles escassos dias em que as almas de ambos se tornam uma. O dilema arrasta-se durante mais de duas décadas. Pelo meio Ennis divorcia-se, passa dificuldades e continua a não aceitar assumir a sua sexualidade. O desfecho trágico adivinha-se, aliás, na senda de outros grandes romances, como o clássico “Romeu e Julieta” ou “Titanic”, onde os produtores foram buscar inspiração para o poster que encabeça este texto. Ou seja, o pelo de “Brokeback Mountain” é universal.
O filme centra-se, quase exclusivamente, em Jack e Ennis, com as restantes personagens a terem papéis absolutamente secundários. Não há tempo narrativo para saber como é que eles se relacionam com o resto do mundo, nem sequer como gerem a sua vida. Nada disto interessa, porque o que nos é mostrado é o romance entre os dois. Este mecanismo narrativo é quase clássico e permite uma maior identificação do espectador com as personagens. “Brokeback Mountain” é, só e apenas, a história de um amor entre duas personagens, muito mais do que um filme que mostra a paixão entre dois homens. O que assistimos é ao amor correspondido mas jamais plenamente cumprido, entre dois seres humanos. É esta a grande vantagem do filme de Ang Lee sobre muitas outras histórias com homossexuais como protagonistas. Em “Brokeback Mountain” Ennis e Jack não são dois estereótipos de gays. São indivíduos normais, inseridos na sociedade, cada um com a sua família, mas a quem o destino privou de conviver com a pessoa amada.
Mais do que outra coisa, Ang Lee tem o enorme mérito de não transformar o filme num qualquer panfleto gay e de mater a história sempre dentro de uma enorme decência, incluindo as cenas de sexo. O ritmo do filme é lento, talvez o único ponto negativo que se lhe poderá apontar. Mas tudo em “O Segredo de Brokeback Mountain” é contemplativo e lento, desde as paisagens ao tempo narrativo. O filme é feito de muitos silêncios e de ainda mais solidão. Tudo é seco, áspero e frio, com excepção do amor de Ennis por Jack. O próprio Ang Lee optou por uma fotografia cuidada, com um excelente trabalho de iluminação. Nas cenas de interiores recorreu-se muito à luz natural, o que se traduz numa luminosidade melancólica, típica do cinema independente, assim acentuando o drama amoroso que cada personagem carrega dentro de si, aprisionado entre as paredes de uma família que nunca nenhum deles quis ter.
As interpretações de Heath Ledger e de Jake Gyllenhaal são excelentes, com destaque para a do primeiro. O actor australiano compõe um Ennis traumatizado, quase como se carregasse o peso do Mundo às costas. Os seus silêncios, a sua tristeza e a sua dor, são mostradas por subtis mudanças de expressão, provando que estamos perante um dos melhores actores da sua geração. Ao seu lado, Jake Gyllenhaal confirma uma carreira fulgurante, com uma interpretação confiante e cheia de energia, confirmando a boa impressão de “Máquina Zero/Jarhead”.



“O Segredo de Brokeback Mountain” é o grande favorito aos prémios da Academia. Ainda não nos podemos pronunciar sobre se será o melhor dos filme porque ainda nos faltam ver dois dos cinco candidatos. Pessoalmente, continuo a apostar em “Colisão”. Mas, mesmo que não ganhe, há algo que jamais pode ser retirado a este filme: o facto de ter sido o primeiro a abordar uma relação homossexual masculino sem ter de atender aos estereótipos do costume.
Mesmo no final, a filha de Ennis vem ter com ele à roulotte onde o pai habita, convidá-lo para o seu casamento. Ennis diz-lhe que não poderá ir. Mas sabendo que a filha ama o noivo, retrocede na sua afirmação e confirma a presença. Ennis finalmente percebera que o amor é a coisa mais importante do Mundo. E Ang Lee termina com um plano, tomado do interior da caravana, de uma das janelas, vendo-se uma paisagem iluminada por um sol brilhante… Tal qual John Wayne, há muitos anos abria a porta do quarto onde estava, deixava-a aberta e partia para o deserto, terminada que estava a sua missão. O filme era “A Desaparecida/The Searchers”, em que o lendário actor, personificação da masculinidade do Velho, interpretava também procurou vencer a xenofobia que o levava a odiar as tribos índias. Foi exactamente há meio século, em 1956. Não sei se estarei por cá para ver que preconceitos irão ser combatidos com um western rodado em 2056…
Dupont