segunda-feira, fevereiro 13, 2006

«Orgulho e Preconceito/Pride & Prejudice», de Joe Wright

Com o aproximar da data de entrega dos Óscares pela Academia de Artes e Ciências de Hollywood, há que procurar ver o maior número de candidatos, até para se poder fazer um juízo crítico sobre o resultado das opções. “Orgulho e Preconceito” tem quatro nomeações, embora só uma seja das “grandes”, a de melhor actriz, para Keira Knightley.
O argumento é conhecido e já foi alvo de várias abordagens para cinema e televisão. Lizzie vive com os pais e as suas quatro irmãs, todas elas solteiras. A grande preocupação da mãe é casá-las, de preferência com alguém abastado e que as possa suportar. Num baile, conhece Mr.Darcy, por quem se apaixona quase imediatamente. Só que Lizzie é orgulhosa e não embarca, sem mais, na relação, enquanto Darcy tem algum preconceito relativamente ao estatuto social dela. Após algumas peripécias, nomeadamente das relações secundárias que se desenvolvem à volta, os dois acabam por declarar o seu amor um ao outro.
Torço o nariz sempre que aparece uma destas adaptações de clássicos. Normalmente, o realizador fica preso aos cenários e à fidelidade com a obra original e os actores acham que esses papéis estão destinados a uns quantos eleitos, pelo que dão o seu melhor teatralizando a interpretação. Isto aliado ao facto desmotivador de, normalmente, já conhecermos o argumento…Felizmente, desta vez, enganei-me, o que é já é a segunda vez relativamente a esta obra...
“Orgulho e Preconceito” é uma excelente surpresa. Joe Wright, no seu primeiro trabalho para cinema, apanhou muitíssimo bem o essencial da história de Jane Austen e soube transpô-lo para o cinema com conta, peso e medida. Na verdade, não perde tempo a mostrar-nos os palácios e as belezas do english countryside, e deu suficiente liberdade aos actores para que eles compusessem personagens credíveis, capazes de mostrar sentimentos, sejam eles de riso ou de choro, longe do semi-imobilismo que parece assaltar estes filmes de época. Por outro lado, fugiu às panorâmicas e aos planos médios, concentrando-se em grandes planos, o que, como é sabido, aliado a uma inteligente montagem, proporciona um visionamento dinâmico.
No entanto, o grande trunfo do filme foi a escolha de Keira Knightley para o papel de Lizzie Bennett. “Descobri” a actriz há apenas quatro anos, em “Bend it Like Beckam” e logo me chamou a atenção, pela sua forma de estar, descontraída e confiante. Depois, com excepção da comédia romântica natalícia “Love is All Around”, acompanhei-a em filmes “de época”: “Piratas das Caraíbas”, “Rei Artur” e, agora, em “Orgulho e Preconceito”. O seu rosto, belíssimo, parece não estar talhado para este tipo de papéis, até porque a sua beleza é contemporânea, quase pop, o que poderia revelar-se algo anacrónico. Mas, na realidade, Keira Knightley enche o écran de luz, com um sorriso contagioso e uns olhos brilhantes e inteligentes. A sua interpretação de Lizzie é soberba, alternando momentos de contenção com outros de alguma irritação, mas sem nunca ultrapassar os limites da decência, exigidos na época. Não sei como são as interpretações de Reese Witherspoon e de Judi Dench que lhes granjearam nomeações para o Óscar. Mas duvido que atinjam o esplendor da de Keira Knightley.
Relativamente ao resto dos actores, Matthew MacFaden é o recatado Mr.Darcy, numa interpretação feliz, em claro underacting, não conseguindo, no entanto, fazer esquecer a composição de Colin Firth, na mini-série da BBC. Aliás, essa produção britânica continua a ser a melhor adaptação do romance de Jane Austen, só perdendo para esta na interpretação do papel de Lizzie Bennett. No entanto, seria injusto não recordar que essa fantástica versão televisiva tem cinco horas de duração, o que permite outro desenvolvimento das personagens, além de possibilitar uma maior riqueza na exploração dos sub-plots. Quem estiver interessado, está à venda na FNAC, que foi onde a comprei para oferecer à minha mulher, como presente de Natal. Na altura, fi-lo com pride, mas também com algum prejudice, para dizer a verdade… Também aí me enganei.
Dupont