sexta-feira, fevereiro 17, 2006

A origem da palmada

Sou pai de duas crianças, ambas a frequentar a escola primária. Ontem, ao chegar a casa, a minha mulher contou-me que apanhara uma delas a dar uma estalada na outra. Chamou a agressora, repreendeu-a e deu-lhe uma palmada na mão. Imediatamente a outra se levantou de onde estava sentada, dirigiu-se a ela e estendeu-lhe a mão, aguardando, também, uma palmada. Surpreendida, a mãe perguntou-lhe porquê. É que, afinal, tinha sido esta a primeira a prevaricar.
Esta história chamou-me a atenção porque, por vezes, julgamos que a nossa visão do Mundo é que está correcta. Assistimos a um certo desenrolar dos factos, contentamo-nos com o que apreendemos e não cuidamos de saber a origem primeira de todo o problema.
Vem isto a propósito, claro está, da argumentação que, por vezes, é empregue para defender determinadas posições. O caso mais recente é o de Freitas do Amaral que resolveu afirmar que no balanço entre o Ocidente e o Oriente muçulmano, terá sido o primeiro a causar mais mossa ao segundo, do que o inverso. Não valerá a pena estar aqui a escalpelizar toda a história do século XX à procura da origem da culpa de muito do mal histórico e social de hoje, mas convém relembrar algo que me parece determinante: é que, mais do que o mal que o Ocidente eventualmente terá feito ao mundo muçulmano ou vice-versa, quem fez encalhar o Oriente islâmico foi ele próprio. A cegueira político-religiosa, o abuso e usufruto pessoal dos bens naturais dos respectivos países por parte dos ditadores, o colossal fosso entre privilegiados e pobres, entre outras questões, não foi causado pelo Ocidente. Muito pelo contrário, o Ocidente é que lhes compra o pouco que produzem, sendo certo que muitas vezes os explorou. Mas em África aconteceu o mesmo e não há sinais de idêntica revolta. O que se vê, no fundo, é a inveja e o mal-estar de uma vida miserável face ao modo de ser e de viver dos ocidentais. Não foi por acaso que, em 11 de Setembro, os aviões chocaram contra umas torres chamadas “World Trade Center”.
Um dia, o petróleo vai acabar. É difícil imaginar o que é que irá acontecer as esses países e aos seus povos. Espoliados por ditadores sem escrúpulos e por dirigentes que usam a religião como arma política de terror, só lhes restará, então, apelar aos países que, no passado, andaram a injuriar e a bombear. Mas, é claro, atribuir culpas dentro de casa não serve aos interesses dos próprios, sob pena de perderem a cabeça. E, já agora, também é verdade que não apela às televisões ocidentais…
Dupont