quarta-feira, fevereiro 08, 2006

«Reality-Shows dão lugar à ficção nas televisões mundiais»

É este o título de um artigo do Público, da edição de Domingo. A conclusão é da NOTA- Mediamétrie-IMCA-Eurodata TV, após análise a dados recolhidos nos nove países com mais peso no mercado televisivo em 2005.
A conclusão parece simples: a ficção está de volta e em força. Na verdade, nunca deixou de marcar presença, mas, ao nível do entretenimento, os reality-shows tomaram conta do prime-time. Em vez de histórias ficcionadas, o público queria era ver histórias da vida real… Um pouco por todo o mundo, foram vários os formatos que tiveram sucesso, desde o pioneiro “Big Brother” até produtos como “Masterplan” ou “Acorrentados”. A qualidade foi coisa que nunca preocupou os produtores, escravos das audiências.
Mas parece que, agora, as coisas estão a mudar. O ponto de viragem terá começado com “Donas de Casa Desesperadas”, que a SIC vai passando entre nós. Mas, mesmo antes desta brilhante série chegar aos écrans, “X-Files-Ficheiros Secretos” e “Os Sopranos” já prenunciavam o regresso da excelência narrativa e argumentativa em televisão. Actualmente, a holding “CSI” faz furor por todo o mundo, tal qual policiais como “Without a Trace - Sem rasto”, “The Shield-O Protector”, “Cold Case- Caso Arquivado”, ou dramas como “House”, “Commander in Chief”, “The West Wing-Homens do Presidente”, “The L-Word”, “Lost-Perdidos” e “Six Feet Under/Sete Palmos de Terra, a ficção científica de “Invasion” e “Surface”, sem esquecer a referência máxima em séries de espionagem, “24”, agora na sua quinta série.
Algumas já passam entre nós, entre os canais generalistas e os de cabo, como o “AXN” e o “Fox”. Mas há ainda uma outra possibilidade para as visualizar: o DVD. Dada a diferença de exibição entre Portugal e o resto do mundo civilizado, é fácil conseguir ver uma série mesmo antes dela estrear cá. Por exemplo, veja-se o caso de “The Shield”, que vai, nos EUA, na sua quinta temporada e só agora a TVI começou a emiti-la. Em DVD, a Amazon já disponibiliza as primeiras quatro seasons…O mesmo se passa em relação a outras atrás mencionadas. O argumento de que fica caro estar a investir umas dezenas largas de euros em séries que só se vêem uma vez tem alguma pertinência, mas pouca. Quem quiser guardar, vai engrandecendo a dvdteca (!), mas há também a alternativa de colocar à venda num qualquer leilão online e obter um razoável retorno.
Foi assim que consegui ver algumas destas séries. A maior façanha foi derrubar os 240 episódios da “Friends” em pouco mais de ano e meio… No entanto, deixo aqui duas referências que considero obrigatórias no actual panorama televisivo.
A primeira, já a mencionei, é “The Shield”, a que a TVI renomeou de “O Protector”. O cenário é uma esquadra de Los Angeles situada numa das piores zonas da cidade. O chefe é um latino com grandes aspirações políticas, que tem de gerir a esquadra com os poucos recursos de que dispõe, bem aturar os polícias, sempre cheios de pressão. Entre estes está Vic Mackey, o líder da unidade local anti-violência. O grande trunfo de “O Protector” reside, precisamente, nesta personagem, um polícia sem escrúpulos, extremamente violento, completamente maquiavélico, para quem tudo vale na prossecução dos seus objectivos, pessoais ou da esquadra. Ele recebe dinheiro, elimina marginais que possam complicar o negócio, dá protecção a criminosos, mas, no final, quando se fazem as contas do “dever & haver”, paradoxalmente, houve muita justiça que entretanto foi feita. As cenas de acção são do melhor que já se fez para televisão e a tensão dramática é esmagadora, uma vez que ainda há um polícia em crise de aceitação de homossexualidade, um detective inteligente mas solitário e alvo de gozo dos colegas e que gosta de uma agente que é amante de… Vic . Infelizmente, a TVI programou-a para as horas tardias de terça-feira, o que fará com que passe despercebida.
Uma segunda sugestão é “Lost-Perdidos”. Sinceramente, desde as duas primeiras séries de “24” que não ficava tão colado a um écran de televisão. O argumento é do mais simples que pode haver: um avião que se dirigia de Sidney para Los Angeles despenha-se numa ilhota tropical do Pacífico. Sobrevivem cerca de meia centena de passageiros, que enquanto esperam salvamento, tentam manter-se vivos, num local que parece desabitado, que parece não oferecer perigo e que parece que foi o acaso que ali os reuniu… Aliás, até parece que se trata de uma versão do reality-show "Survivor", mas não é...
Efectivamente, é caso para dizer que “o que parece, não é”… Na verdade, com o passar dos dias, os sobreviventes vão notando coisas estranhas. Os únicos animais que conseguem descortinar são javalis e …ursos polares. A chuva começa a cair de repente e pára, igualmente, de forma instantânea. Há ruídos e vozes estranhas. Só que, na verdade, o espectador vê e ouve tanto como os protagonistas, ou seja, quase nada…
Mas não se pense que tudo se passa à volta da vida dos personagens na ilha. Pelo contrário, o que assistimos em monatgem paralela, é à vida que cada um deles levava antes do acidente. E a ideia que fazíamos de cada um vai-se, lentamente, alterando. O médico excepcional que, afinal, havia denunciado o próprio pai, também, médico por conduta profissional reprovável. A rapariga doce e carinhosa que, na verdade, vinha detida no avião pela prática de vários crimes, entre os quais homicídio e assalto a bancos. O paralítico que regressava a casa e que, agora, já caminha normalmente, o iraquiano solícito e amável que teve ligações com a CIA para descobrir o paradeiro da sua amada, etc. Este background de cada personagem é-nos fornecido a conta-gotas, impedindo-nos de ver o quadro global, e obrigando-nos a rever, constantemente, a ideia que fazíamos de cada personagem. Como que “em troca”, o espectador é o único que consegue aperceber-se que há uma teia invisível que os une a todos, mas de que eles ainda não se aperceberam: ou já se tinham cruzado, ou possuem coisas relacionadas uns com outros, ou foram protagonistas de episódios que influenciaram terceiros – tudo isto sem nunca se terem encontrado antes do acidente…
A RTP já passou alguns episódios, anunciou que vai voltar a exibir uns quantos, tudo na típica amálgama horária e editorial lusa. É pena, porque quer “Lost” quer “The Shield” são, repito, do melhor que se pode ver em televisão.
Dupont