terça-feira, fevereiro 14, 2006

Um país de piratas...

Neste fim de semana saíram duas notícias sobre o actual estado do cinema em Portugal, quer do que passa nas salas de espectáculo, quer do que se vê nas salas de estar.
Em relação à primeira, no DN, há uma meia boa notícia. No geral, o número de espectadores diminuiu, passando de 16,9 milhões em 2004 para 15,7 em 2005. Em contrapartida, o cinema português teve uma subida de 37,7%, passando de 335.000 espectadores, para 462.000 espectadores. É claro que isto se deve, quase exclusivamente, ao fenómeno “O Crime do Padre Amaro”, o filme português mais visto de sempre.
A segunda notícia referia o estado da pirataria em Portugal, com um crescimento brutal de 50% em 2005. Como já havíamos referido n'O Vilacondense, o DVD registou, pela primeira vez, uma quebra de vendas, com perdas estimadas na casa dos 12,5 milhões de euros. Aliás, a pirataria grassa em todo o mundo cultural, uma vez que não se limita só ao audiovisual, mas chega, igualmente, ao mercado do livro, onde se detectaram já contrafacções de livros infantis, curiosamente em Vila do Conde – sem esquecer, claro, a praga das fotocópias…
O problema, aqui, continua a ser um misto de permissividade das autoridades, aliado a um baixo poder de compra. Em qualquer feira, de Norte ao Sul do País, se pode ouvir o famoso pregão “três a cinco euros”, com possibilidade de troca caso não funcione. As autoridades não ligam rigorosamente nada, o que não deixa de ser surpreendente… O povo, claro, perante um tal maná, nem hesita em comprar, rindo-se de quem gasta dinheiro em salas de cinema ou em DVDs legais.
É claro que mais pirataria significa menos lucros para as companhias produtoras de conteúdos, muito embora ninguém vislumbre qualquer diminuição na produção ou nos lucros…
A solução passará, talvez, pela disponibilização online do produto a um preço irrisório, como acontece com o iTunes para música. A tecnologia ainda não o permite, mas não demorará muito a que uma família inteira possa ver um filme pelo preço de um único bilhete. Entretanto, iniciativas pioneiras vão tentando fazer a ponte entre os vários momentos da vida de um filme. Recentemente, Steven Soderbergh lançou o seu mais recente trabalho “Bubble” em televisão, cinema e DVD, tudo ao mesmo tempo. As reacções só foram positivas por parte do público, uma vez que os representantes daquelas três áreas se queixaram, em uníssono, do autêntico canibalismo entre formatos que uma iniciativa do género produziu.
Mas não deve ser preciso esperar muito. Há dez anos ligava-me à Internet, com o Netscape 2.0, ligação telefónica precária e sei lá bem o que mais. Hoje, a banda larga está generalizada, há Internet sem fios e as diskettes são coisa do passado. Tudo isto para dizer que o futuro está mesmo à porta…
Dupont