quarta-feira, fevereiro 22, 2006

«Walk The Line», de James Mangold

Não posso estar a falar desta biopic de Johnny Cash sem fazer, antes do mais, uma declaração de interesses: sou um dos seus maiores fãs.
Johnny Cash é a personificação da América. “Da América e não dos Estados Unidos”, como uma vez referiu o Álvaro Costa. Tomei contacto com Cash há mais de duas décadas, por referência insistente de muitos dos rebentos que brotaram das muitas sementes que atirou à terra, com Bruce Springsteen à cabeça. E quando me apercebi do marco incontornável da música contemporânea que ele era, fiz a habitual rusga à loja de discos para comprar tudo o que dele lá houvesse… Johnny Cash vestia de negro e era precisamente sobre uma América negra, situada bem longe dos holofotes do american dream que ele cantava. Falava dos desprotegidos, dos esquecidos, dos fracassados, dos oprimidos. Não o fazia como músico de intervenção – munido apenas com a sua guitarra, contava histórias de homens desiludidos, de cidades abandonados, de soldados angustiados, de pecadores arrependidos aguardando a redenção. Gravou dezenas de álbuns e milhares de canções. Tocou rock, country e folk. Gostava tanto de música que não tinha qualquer problema em interpretar versões de outros artistas. Na Europa e em Portugal nunca foi ‘grande’, apesar de algumas estrelas da actual cena musical bem puxarem por ele, como os U2, os Nine Inch Nails e Elvis Costello, entre outros. Mas não se pense que toda esta melancolia se traduzia numa vivência deprimente. “Não estou obcecado com a morte; estou obcecado é com a vida”, costumava dizer. No dia da sua morte, um seu colaborador comentou: “a única coisa que me alegra é que, hoje, o céu ficou com mais luz”.
Com uma vida rica, recheada de significado, era natural que alguém, um dia, a quisesse passar a filme. Aconteceu agora, com o argumento a nascer das suas duas autobiografias: “Man in Black" e "Cash: The Autobiography”. Curiosamente, antes de morrer, em 2003, ainda teve oportunidade para trabalhar no guião…



“Walk The Line”, o filme, conta-nos precisamente a história da vida de Johnny Cash, desde os tempos de miúdo, no Arkansas, subjugado a um pai alcoólico que não gostava dele e confrontado, para sempre, com a morte do irmão que o cantor adorava. Depois é todo o percurso do cantor, desde o encontro com o lendário Sam Philips, da Sun Records, em Memphis, casa onde tinha despontado Elvis Presley. Com a fama sempre a aumentar, a conta bancária a crescer e a dependência de drogas a instalar-se, aí temos o percurso clássico de uma estrela rock, com ascensão, queda e, em raros casos, como o de Cash, a sua ressurreição.
Os produtores poderiam ter feito um filme que se centrasse sobre o génio criativo de Cash, mas optaram, antes, por centrar a acção no relacionamento amoroso que ele teve com a cantora June Carter. Alegre, com uma personalidade cativante, vai ser ela o amor da sua vida. Por ela, Cash largou a primeira mulher e os filhos e será June a libertá-lo da droga. Viveram juntos trinta e cinco anos. Morreram ambos em 2003, com apenas quatro meses de diferença…
O título do filme, “Walk the Line”, vem directamente do título do seu maior hit, que esteve onze semanas em número um do Top da Billboard e parte de um comentário irritado de June, dizendo-lhe que ele só a teria caso “andasse na linha”: “As sure as night is dark and day is light / I keep you on my mind both day and night / And happiness I've known proves that it's right / Because you're mine, I walk the line
Ao longo do filme, são várias as canções que nos são dadas a conhecer, desde as pioneiras “Cry, Cry, Cry”, “Ring Of Fire", "Folsom Prison Blues" ou "Sunday Morning Coming Down", sem esquecer os vividos duetos com June Carter, com destaque para “Jackson”.



O maior momento da carreira de Johnny Cash foi a gravação de “Live at Folsom Prision”. Como o próprio nome indica, foi um álbum ao vivo gravado numa prisão. Cash tinha imensos fãs entre os reclusos das cadeias americanas, não só por ele próprio ter passado por lá o que levava a uma certa identificação, como também pelo facto de as suas canções darem vida a personagens marginalizados, assassinos e criminosos, como os que se encontravam presos. O filme começa e praticamente encerra com esse concerto de 1968. Mas teremos de recuar décadas para perceber a metáfora em toda a sua riqueza. Cash viveu até muito tarde preso à angústia da sua doentia relação com o seu pai, além de viver atormentado com a morte do irmão: “Isto é obra do Diabo, que me levou o filho errado”, proclamou o alcoólico progenitor. Esta memória acompanharia Cash para sempre, como que o prendendo numa camisa-de-forças. Já na tropa, assiste a um documentário sobre a prisão de Folsom e fica hipnotizado. A partir dali, quando Cash falava daqueles a quem o melhor da vida passava ao lado, não estava só a falar deles, mas de si próprio.
O filme, felizmente, capta de forma extraordinária o drama e a angústia de Cash. Mas não o faz de forma deprimente ou tentando esconder os esqueletos do cantor no armário. Cash é mostrado como um homem simples, tocado pela música, com os seus defeitos e pecados. E digo “pecados” porque a vertente religiosa é fundamental, já que Johnny e June eram profundamente cristãos. James Mangold não entra em lamechices, procurando fazer a ponte entre o homem e o artista, conseguindo dar uma visão equilibrada desta dupla faceta. Mas teve duas ajudas de peso: Joaquin Phoenix e Reese Witherspoon. Ambos os actores estão magníficos nos papéis de Cash e June. Ambos optaram por interpretar as canções inseridas no filme, uma ideia feliz e muito bem concretizada. Phoenix já tem por si um ar melancólico, o que em “I Walk The Line” fica na perfeição, enquanto a alegria e luz de Reese Witherspoon dão vida a uma June Carter dotada duma personalidade absolutamente cativante.
“I Walk The Line” não é um grande filme, nem me parece que queira ser. Inteligentemente, fizeram dele bem mais do que um mero registo biográfico, transformando-o numa bela história de amor, com uma banda sonora de excelente nível. A não perder, para cinéfilos e melómanos.
Quem quiser saber mais sobre este extraordinário compositor e intérprete pode dar um salto a esta página da BBC Online, onde poderá escutar uns segundos de "I Walk The Line" ou a sua entrada na Wikipedia. O site oficial de "Ring of Fire", o musical baseado nas músicas de Cash que proximamente irá estrear na Broadway, é aqui.
Dupont