sexta-feira, março 31, 2006

«Bloqueadores de camas»

A mania da optimização da gestão e da maximização da eficiência causa-me uma certa alergia, como muita coisa que sai da cabeça de gestores e economistas. Em nome do lucro tomam-se decisões frias e intolerantes, sem olhar para quem vai ser o receptor. As pessoas são tratadas como coisas, que se podem dispor e despejar, como se de um qualquer objecto descartável se tratasse.
A última versão desta paranóia capitalista veio da Inglaterra e foi capa no Times (ou aqui). O Royal College of Obstetricians and Gynaecologists rotulou os bebés que nascem com menos de 25 semanas de “Bed blockers”, que podemos traduzir por “bloqueadores de camas”. Porquê? Porque na opinião deste conselho médico, estão a ocupar as camas que poderiam servir a outros bebés mais viáveis. Isto, claro está, num contexto em que o Serviço Nacional de Saúde britânico atravessa uma profunda crise financeira, com despedimentos e encerramentos de valências.
Mas não se pense que é opinião única. Também o Royal College of Paediatrics and Child Health vai reunir-se no seu congresso anual para votar uma moção que considera “não ético” que se providencie cuidados intensivos a prematuros com menos de 25 semanas. Tal só acontecerá em situações muito específicas, num processo muito semelhante ao que existe, actualmente, na Holanda.
E os números? Bem, na Inglaterra nascem 800 bebés por ano nessas condições. Com 24 semanas, a taxa de sobrevivência é de 39% baixando para 17% com 23 semanas. O custo diário para manter vivo um destes recém-nascidos é de £1000 ou 1.330,00 euros, sendo certo que alguns dos sobreviventes ficam com sequelas que lhes retiram qualidade de vida.
Sinceramente, este tipo de discussão ultrapassa-me. Estar a ponderar a viabilidade, ou não, da vida de uma criança por causa da tesouraria do Ministério é algo que me deixa perplexo. Em tudo na vida, a prioridade tem de ser dada à vida humana. É isso que me faz ser contra a liberalização total da interrupção voluntária da gravidez, a eutanásia e a pena de morte.
Do ponto de vista da evolução humana isto é quase um mergulho no espírito puramente animal, em que a manada avança e os mais fracos ficam para trás… A diferença é que nós não somos animais e já evoluímos muito desde o tempo em que os anciões de Esparta mandavam atirar os bebés pouco promissores do alto do Monte Taygetos…
Efectivamente, anos e anos de evolução não podem levar a um comportamento perfeitamente desumano que é ver nascer uma criança, pousá-la num berço e ficar a olhar para ela e esperar para ver se ela se vai salvar ou não… E a pobre criatura ali fica, a lutar pela vida, sem apoio, sem ajuda, sem que um médico dela se aproxime porque alguém decidiu que fica muito caro tentar salvá-la…
Aprovar semelhante medida é mais do que legalizar actos criminosos e hediondos. É negar todos os valores em que a nossa civilização assenta. No fundo, é a negação de nós próprios.
Dupont