sexta-feira, março 03, 2006

«Eddie» Merkel

É extraordinário como uma apreciação precipitada pode criar um tremendo engodo. Há apenas cem dias o que é todos pensavam de Ângela Merkel, a nova chanceller alemã?
A vitória da sua CDU não havia sido suficientemente clara para poder formar Governo, pelo que teve de abrir a porta e deixar entrar os socialistas do SPD. Por essa altura e como aqui referimos n’O Vilacondense, a Alemanha vivia um período de enorme depressão, não só em virtude da acção governativa de Gerhard Schröeder, como de uma série de denúncias de casos de corrupção dentro das maiores empresas alemãs. Basta recordar o escândalo das prostitutas brasileiras que entretiveram quadros da VW, numa reunião de cúpula em Lisboa. Além do mais, o cenário global de crise não deixava de fora a Alemanha que vivia com crescente número de desempregados e empresas a falir. Finalmente, ao nível externos, o anterior chanceller cultivava uma quase inexplicável paixão pela Rússia de Putin, o que deixava de boca à banda a Europa e, principalmente, os EUA.
Ora, Ângela Merkl conseguiu, em tempo record, dar a volta a tudo isto. Desde logo, conseguiu fazer um consenso entre a CDU e o SPD na Grosse Koalition, uma espécie de Bloco Central. A coligação parece inatacável, fruto da unanimidade de opções políticas das forças que a compõe. Veja-se que algumas reformas profundas, já iniciadas, nada têm de populares, mas o certo é que os alemães parecem confiar que um apertar, agora, do cinto, levará a benefícios futuros. Ao nível da política externa, fez deslocar o foco da diplomacia germânica, passando-o de Moscovo para Washington, e conseguindo reanimar as relações com a França que estavam como que embaladas por uma entediante monotonia.
Olhando para todo este panorama, o que ressalta é o enorme crescimento da confiança nos alemães, que voltaram a acreditar no seu Governo e no futuro do seu país. Tudo isto foi conseguido em apenas cem dias. E, sinceramente, parece uma eternidade, quando comparados, por exemplo, com os cinzentos trezentos e sessenta e cinco dias que José Sócrates recentemente assinalou.
Dupont