quinta-feira, março 02, 2006

Florentino Perez


A demissão de Florentino Perez da presidência do Real Madrid prova como nem sempre a pessoa aparentemente indicada para o cargo produz os melhores resultados.
O demissionário Presidente chegou a rei do principal clube de futebol do Mundo com um estardalhaço homérico: iria transformar aquele clube numa empresa de dimensão mundial. Prometera à afficion o melhor jogador a dar pontapés na bola nos relvados de Espanha. Cumpriu, chamando-lhe um figo. Mas não parou: a cada ano que passava foi contratando vedeta atrás de vedeta. Entretanto, a empresarialização do clube seguia imparável, tornando-o o mais rico do Mundo, à frente do aparentemente inamovível detentor do ceptro, o Manchester United. Aliás, há quem o acuse precisamente disso: “Hay gente que busca llegar al mundo del fútbol porque ama el negocio de la construcción de ciudades deportivas…”, escrevia-se ontem no ABC.
Só que esta curva ascendente de sucesso empresarial contrastava com a descendente de conquistas desportivas. Os jogadores do Real ganhavam milhões, mas nem taças de tostões conseguiam trazer. Por outro lado, quais primma donnas caprichosas, opinavam sobre as opções do treinador e tinham a desfaçatez de questionar o próprio presidente.
Florentino Perez cometeu vários erros. O primeiro é que esqueceu, por ignorância ou opção, que um clube não é uma empresa. Os sócios e simpatizantes estão a marimbar-se para as contas. O que eles querem é vitórias, vitórias e mais vitórias. Depois, olvidou uma outra máxima do desporto colectivo: uma excelente equipa não tem necessariamente de ter os melhores jogadores do Mundo, mas jogar como tal. Como se isto não bastasse, o grande rival interno, o Barcelona, faz sonhar os adeptos de todo Mundo com um futebol fantástico protagonizado por aquisições viçosas como Ronaldinho, Deco, Eto’o e Messi - o poder deste novel dream team é tal que até dobrou o special one José Mourinho… Em quarto e último lugar, lembrou-se, agora, de fazer uma coisa que um Presidente jamais poderá fazer: criticar publicamente os jogadores pelos maus resultados. Alguém, algum dia, viu Pinto da Costa a fazer semelhante coisa? O cocktail resultante destas opções profundamente erradas foi o rodar da maçaneta da porta de saída.
Este tipo de personagens sempre me fascinou. É gente dotada de uma visão, que tudo faz para a pôr em prática, bem sabendo que a linha entre génio e louco é muito ténue. Na verdade, o que é que o próximo Presidente irá fazer com geriátricos, e já não galáticos, como Zidane ou Roberto Carlos, ambos uma sombra do que já foram? Vai despedir toda uma equipa e construir outra a partir do zero? E onde é que vai ter tempo para isso, com os adeptos a clamarem por resultados imediatos? Florentino esteve quase perto do Olimpo, mas esqueceu-se de uma coisa simples mas absolutamente basilar: “são onze contra onze e a bola é redonda”.
Dupont (Cartoon: ABC)