segunda-feira, março 06, 2006

“Império à Deriva/Empire Adrift”, de Patrick Wilcken

Com o subtítulo “A Corte Portuguesa no Rio de Janeiro 1808-1821”, este livro de Patrick Wilcken aborda a decisão da corte portuguesa em se refugiar, no Brasil, da invasão de Portugal pelas tropas napoleónicas.
“Império à deriva” começa por enquadrar a acção nos tempos que antecederam a inédita tomada de posição e termina, praticamente, com a independência do Brasil, em 1822. Entretanto, vamos observando não só o que era a vida na corte mas, também, como é que o povo sobrevivia e os modos e costumes da época.
Olhando para trás, o leitor português terá uma estranha sensação de identificação. Então, como agora, já por cá reinavam o compadrio, a confusão, a hipocrisia e a corrupção. O rei podia ser um incapaz, e D. João VI não passaria disso, mas o povo adorava adular o soberano, quase o deificando. A família real era uma lástima, com adultérios constantes, ignorância a rodos, sempre com a intriga como modus vivendi. Por outro lado, o atraso em relação à Europa já era assinalável. As representações culturais estavam sempre desfasadas no tempo e até a moda e o protocolo reais há muito que haviam deixado de ser usadas por essa Europa fora.
A ida para o Brasil de cerca de dez milhares de portugueses que constituíam, alegadamente, a nata do regime, teve o condão de personificar o pior que Portugal tinha e que foi, irreversivelmente, conspurcar o paraíso sul-americano. Aliás, a empreitada começou logo mal, com uma largada caótica e terminou com a indescritível chegada ao Rio de Janeiro, mais de dois meses depois. Durante esse tempo, os tiques de potência colonial não fizeram com que alguém imaginasse que iriam surgir problemas elementares, como o vestuário pesado que levavam ou o tipo de pessoas que iam encontrar. Não admira, portanto, que “os exilados passassem as primeiras semanas em estado de choque cultural e emocional”, (Pag. 110) até porque o Rio era uma cidade onde faltava tudo o que era essencial. Mas, o que não faltaram, foi jobs for the boys:
Os cargos de conselheiro foram distribuídos quase exclusivamente a nobres portugueses, muitos deles com pouco ou nenhum conhecimento da colónia. Recriavam-se fielmente departamentos inteiros com uma ténue relevância para a realidade brasileira. Na realidade, as disposições eram mais uma questão de conseguir emprego para os milhares de burocratas refugiados do que servir as necessidades do Brasil (pag.117) (…)
A corrupção fora sempre uma característica da vida por todo o império, mas surgiu de forma exacerbada no Rio de Janeiro. A súbita entrada de milhares de burocratas deslocados criou condições férteis para abusos e várias fortunas de origem misteriosa foram, em devido tempo, acumuladas por pessoas ligadas à corte. Enquanto a vida para a maioria dos cortesãos subalternos era uma luta, os ministros em breve estavam a viver bem acima dos meios que poderiam ter conseguido legitimamente. (pag. 123).
Não se pense, no entanto, que a perspectiva sobre Portugal parte do autor. Wilcken cita abundantes fontes que retratam como o nosso país era, nomeadamente os invasores franceses e a corte austríaca aquando do casamento de D. Pedro com Dª Leopoldina. Aliás, até os portugueses era esquecidos nas guerras napoleónicas, uma vez que “soldados britânicos e franceses bebiam juntos; a um nível mais elevado, os franceses enviaram convites aos oficiais ingleses para torneios que realizavam nos seus campos e através do comércio ilícito chegaram artigos de luxo para minorar as faltas na messe dos oficiais franceses” (pag. 145). Ou seja, com a partida da corte ficámos à mercê dos franceses e dos ingleses, que, em várias ocasiões, pilharam e mataram a seu bel prazer.



Nesse entretanto, passado o choque inicial, a magia do Brasil começou a funcionar e, pouco a pouco, quase todos foram ficando apaixonados pelo país, incluindo o próprio rei. No entanto, a falta de pulso, a chegada das ideias constitucionalistas e a eterna desorganização lusa levaram a várias revoltas que perturbariam aquilo que a corte gostaria de ter sido uma estadia agradável.
A leitura de “Império à deriva” oscila entre o divertido e curioso por um lado, e a estupefacção perante o endémico caos organizativo que parece estar na nossa matéria genética, por outro. Mas também não deixa de ser surpreendente o aprofundar de um período da nossa história que mais não merece do que meia dúzia de linhas nos livros de História, até porque dão mais atenção ao que por cá se passou nessa altura. E uma vez dissecados esses anos, é impossível não ficar com a estranha sensação que a nossa visão da História é, muitas vezes, tolhida por concepções contemporâneas. Por exemplo, é difícil imaginar que há apenas duzentos anos, o rei D. João VI raramente tomava banho ou que a sua mulher andava envolvida com meia corte, ou que piolhos e doenças provocadas por insalubridade eram comuns. Bem sei que a “nouvelle histoire” veio, muito bem, recordar essa realidade que sempre esteve arredada dos livros de História, onde só a “grande histoire” tinha e tem relevo.
Há muito tempo que não me divertia tanto com uma leitura assumidamente séria e científica. No entanto, à semelhança de outras obras de divulgação, “Império à Deriva” consegue perfeitamente fazer a ponte entre o que é uma leitura de entretenimento e uma abordagem profunda e precisa de uma época histórica. Além disso, não se perde em considerações supérfluas, antes oferecendo uma leitura fácil e apaixonante.
O autor é inglês, estudou antropologia e tem um mestrado em Estudos Latino-Americanos, além de escritor e colunista em diversos jornais ingleses. A edição portuguesa, da Civilização Editora, é fraca. As gralhas até nem são muitas, mas há erros imperdoáveis: “sensurada” (pag 256) e “perpicaz” (pag. 279) são disso exemplos.


Por um feliz acaso, a minha leitura de “Império à Deriva” coincidiu com a visita à exposição “Artistas viajantes e o Brasil no século XIX”, patente no Museu Nacional Soares do Reis, que tem o seu início precisamente na chegada da corte portuguesa ao Rio de Janeiro. Trata-se da “Colecção Brasiliana/Fundação Estudar” que está sediada em São Paulo e que é constituída por um conjunto de pinturas, aguarelas, desenhos e gravuras sobre o Brasil do século XIX. Ler o livro e ver a exposição é quase um acontecimento multimédia, uma vez que se consegue visualizar tudo aquilo que Patrick Wilcekn procura descrever em “Império À Deriva”. Não é uma colecção extraordinária, mas vale bem a pena a visita. Está patente até 16 de Abril.
Há cerca de dez anos, no Centro Cultural de Belém, pude ver uma outra exposição muito semelhante a esta, mas muito mais completa: “O Brasil dos Viajantes”. Não mer recordo se o acervo era, parcialmente, o mesmo, mas a filosofia de ambas as exposições era semelhante.
Dupont