sexta-feira, março 03, 2006

A loucura da fama

Há cerca de duas semanas passei em frente às instalações da RTP em Lisboa e não pude deixar de reparar numa imensa fila de gente jovem que, a partir da porta da estação pública, se estendia por mais de 500 metros. Estariam ali uns 1.000 jovens, calculei eu. Num dos dias subsequentes creio ter visto uma reportagem televisiva sobre o facto. Nessa altura fiquei a saber do que se tratava: eram aspirantes a apresentadores de televisão que esperavam a sua vez para participar num "casting" a partir do qual seriam escolhidos os mais aptos à função.
Na passada semana passei deparei com a mesma cena à porta das instalações da RTP no Monte da Virgem em Vila Nova de Gaia. Não eram tantos, mas mesmo assim eram muitíssimos.
Vamos analisar este "fenómeno" em duas vertentes:
ECONÓMICA - Em termos económicos uma tão grande adesão de jovens a um processo de recrutamento pode ser entendido como mais um reflexo do clima depressivo que o país vive e da dificuldade de emprego que os mais novos sentem.
Por outro lado, e através da aplicação a este caso da lei da oferta e da procura, chegamos a uma feliz conclusão para a empresa contratante (RTP) e uma terrível conclusão para os futuros apresentadores. É que a desproporção entre o número de pretendentes ao lugar e o número de lugares disponíveis (talvez 1 lugar para cada 2.500 candidatos) é tão grande que o preço a pagar pelo serviço tende para zero. Ou seja, se a RTP disser que tem lugares de apresentadores de televisão e que está disposta a pagar um salário de ZERO, é muito provável que apareçam muitos interessados. Para a RTP isso é óptimo.
SOCIOLÓGICA - A loucura pela televisão está instalada na nossa sociedade. Só assim se compreende a tremenda vontade daqueles jovens, que aceitam passar imensas horas numa fila para poderem sonhar com a presença no pequeno ecran. Só quando as pessoas ambicionam um conjunto de recompensas que estão para lá da mera vertente financeira é que se pode compreender aquela adesão maciça.
Para aqueles jovens, mais importante do que trabalhar, é passar a ser famosos. Eles pretendem uma profissão que sabem lhes permitirá uma valorização social rápida. Para além disso, querem fazer algo que, aprentemente, não dará muito trabalho.
Esta forma de encarar e de estar na vida é preocupante. Desde logo cria todas as condições para a entrada num estado de depressão e de frustração enormes para a esmagadora maioria deles. Como é evidente, daqueles milhares que participaram no "casting", apenas um escasso número deles verá o seu sonho realizado. Por outro lado, a concepção de que a vida "glamorosa" está ao alcance de todos e de que é possível viver sem grande dificuldades é um erro fulcral. Dá origem a maus cidadãos e degrada a capacidade da sociedade para trabalhar. Para trabalhar a sério.

Dupond