terça-feira, março 07, 2006

O diabo da PDI


Van Morrison, aka “Genius”, lançou ontem o seu mais recente trabalho, “Pay the Devil”. Não é novidade nenhuma que este bardo irlandês está entre os nossos favoritos songwriters, como o prova a inclusão do seu anterior álbum, “Magic Time”, na lista dos melhores de 2005 d’O Vilacondense.
Na altura do post sobre a escolha das nossas preferências musicais do ano transacto, vários comentadores criticaram o facto de os eleitos serem quase todos de "avançada idade. A Mary, do Capas de Culto, nem esteve pelos ajustes: “Escolhas de um quarentão. Ainda usas o cabelo como no tempo do Woodstock, Dupont?”.
Ouço dezenas e dezenas de álbuns por ano, mas não falo de todos aqui n’O Vilacondense. A verdade é que aqueles cinco discos me pareceram os melhores trabalhos de 2005, independentemente da idade dos compositores/intérpretes. Mas aceito que olhando friamente para a lista, a questão da idade seja um dado a ter em atenção, não como causa da escolha, mas sim como sua consequência.
O tema voltou à ribalta quando li na edição de ontem do Guardian o artigo com o feliz título de “Sexagenarians, drugs and rock n’roll”, onde se aborda, precisamente, a questão da idade das estrelas rock. É que não é só o autor do imortal “Astral Weeks” quem está de volta aos escaparates. Neil Diamond (sim, sim, o de “Sweet Caroline”) apresentou um novo disco que está a receber enormes elogios por parte da crítica musical, desde a conservadora “Mojo” à mais irreverente do “NME”. Ray Davies, alma dos The Kinks lançou aos 61 anos um álbum a solo, seguido por David Gilmour dos Pink Floyd, John Cale e os Rolling Stones de que aqui já falámos.
Ouço todo o tipo de música sem preconceitos. Ainda falta algum tempo para dobrar os quarenta, ao contrário do que por aí se diz, mas encontro, cada vez mais, discos de qualidade vindos de compositores-intérpretes (detesto a expressão “cantautores”…) com uma certa idade. Porquê? O articulista do Guardian põe a questão do lado dos artistas: o que eles gostam mesmo é de rock; é aquilo que sabem fazer; e o tempo encarrega-se de destacar os melhores.
Este último argumento é o melhor de todos. A idade traz, inevitavelmente, sabedoria, o que deve ser visto em duas perspectivas. Em relação a alguns, isso rima com “manha”. Têm um produto que gerem sabiamente e que vão deixando escorrer em doses certas. É o que acontece com os Stones, que mais não passam do que uma poderosa imagem de marca, com qualidade e criatividade musicais nulas. Outro tipo de sabedoria é aquela que resulta do acumular de experiências de vida, polvilhadas com algum exercício de racionalismo. Este approach é mil vezes mais interessante e produz trabalhos quase sempre elevada qualidade, como foi o caso de “Prairie Wind” de Neil Young.
Mas há, ainda, um outro factor que julgo não ser de descurar. Na verdade, a passagem do tempo faz com que as pessoas tenham cada vez menos necessidade de provar o que quer que seja. Aos 60, já não há pachorra para aturar o produtor, para ficar nervoso com a vertigem da novidade ou do single de sucesso, ou estar preocupado com os gostos do mercado. O que se quer fazer são composições que espelhem a alma do criador. São, normalmente, trabalhos de raiva saídos do mais profundo da alma do compositor, músicas que estiveram a apurar o tempo certo para serem consumidas.
A idade traz, efectivamente, sabedoria. Basta ver o que aconteceu com Johnny Cash, falecido há dois anos e cujo biopic foi um dos filmes dos Óscares. No fim da vida, a sua obra ganhou uma dimensão e uma profundidade brutais. É certo que a produção de Rick Rubin e a participação de gente semi-nova como os U2 e Elvis Costello ajudaram. Mas se a matéria-prima não fosse de excelência, o produto final jamais teria aquela magnificência.
“Sexagenarians, drugs and rock n’roll”? Definitely!
Dupont