segunda-feira, março 20, 2006

«Uma História de Violência/A History of Violence», de David Cronenberg

Com um atraso considerável em relação à sua estreia americana, finalmente apareceu “Uma História de Violência” nas salas portuguesas, o mais recente filme de David Cronenberg. A história, desta vez, é bastante mais straightforward do que é costume…
Tom Stall vive numa típica littletown dos Estados Unidos, daquelas onde toda a gente se conhece e onde todos vivem na paz do Senhor. Está casado com um advogada, têm dois filhos, um deles já adolescente, enfim, uma vida familiar perfeita. Ele gere um destes friendly diners onde toda a gente da cidade vai para beber café e comer um pouco de apple pie… Um dia, um par de bandidos entra no estabelecimento, não só para o roubar como para matar quem lá estava. Não contam é com a reacção de Tom que, enquanto o diabo esfrega um olho, os liquida com a eficiência e a resolução de um profissional. Transformado em local hero, o seu feito é motivo de regozijo na cidade e na comunicação social. É então visitado por três mafiosos, que insistem em tratá-lo por Joey, o nome que ele teria, segundo dizem, no underground criminoso de Philadelphia. Após raptarem o seu filho para o forçar a aceitar o que dizem, novamente Tom os elimina em pouco segundos, numa torrente de violência pouco comum. A própria mulher começa a questionar quem é que o marido realmente é…
O que é que é verdade – aquilo em que acreditamos ou a realidade pura e dura? E se a segunda for acordada do seu sono, será que é legítimo fazer tudo para repor o status quo ante? E o que é ser violento? Proteger a família dá direito ao uso brutal de força? E a reconquista da felicidade implica que se eliminem todos os obstáculos que a separem dessa realização? E o passado, pode algum dia ser enterrado e esquecido?
Estas são algumas das muitas questões que “Uma História de Violência” levanta ao espectador. Repare-se, até, no próprio título: não é “Uma História da Violência”, nem “Uma História com Violência”. É, isso sim, “Uma História de Violência”, uma vez que a tónica é posta na palavra violência e nos seus plurímos entendimentos e significados. Aqui, Cronenberg provoca-nos, desafiando-nos a pensar no que é que devemos entender por violência e até onde é que a poderemos aceitar. Ao longo da sua obra, o realizador de “Videodrome” e “A Mosca”, sempre mostrou um certo fascínio pelo corpo humano, suas mutações, horrores e concepções, não só físicas (“A ninhada”, “eXistenZ”) como mentais (“Spider”, “Irmãos Inseparáveis”) ou, até, a junção das duas (“Crash”). Desta vez não há nada disso, se bem que, numa ou outra cena, o resultado visual dos actos de violência seja brutal. O que temos em “Uma História de Violência” é a tentativa de mexer com a consciência e com a fronteira entre o bem e o mal. Uma pergunta interessante, de contornos morais, que qualquer espectador poderá fazer no final do visionamento é: “será que, naquela situação, eu também não agiria assim?”.
A realização de David Cronenberg é magistral, como sempre. Planos estudados e cuidados, sempre intencionais, mostrando o importante e não perdendo tempo com pormenores. Uma montagem segura, alternando entre planos rápidos nos momentos de acção e mais lentos nos contemplativos. Viggo Mortensen descola, completamente, da régia personagem que lhe granjeou projecção mundial com o “Senhor dos Anéis” e compõe, aqui, um Tom dorido, mas determinado, ciente do preço a pagar. Depois, registo para uma série de excelentes secundários como Ed Harris, Maria Bello e, especialmente, William Hurt, num papel inesquecível.
“Uma História de Violência” é um dos melhores filmes de 2006. Quase completamente esquecido dos Óscares, à semelhança de “Match Point”, vem provar que Hollywood ainda é capaz de nos encantar com grandes histórias, mesmo quando, à primeira vista, elas nos possam parecer algo bizarras…
Dupont