segunda-feira, abril 10, 2006

«Boa Noite e Boa Sorte/Good Night and Good luck», de George Clooney

Hoje e nos próximos dois dias, iremos abordar, aqui n’O Vilacondense, três filmes: “Boa Noite e Boa Sorte”, “North Country” e “V de Vingança”. Todos eles têm algo em comum: a luta de um indivíduo contra o colectivo que o oprime. Por outras palavras, o desafio de um cidadão contra “o sistema”.

Vamos iniciar este tríptico pelo melhor filme, precisamente “Boa Noite e Boa Sorte”, o biopic de uma das maiores lendas do jornalismo americano: Ed Murrow. Alicerçado na fama conquistada nas transmissões radiofónicas durante a II Guerra Mundial, Murrow é, nos anos 50, uma das principais estrelas da cadeia de televisão CBS, através do seu programa de actualidade “See it now”. Escandalizado com a actividade persecutória do senador Josph McCarthy, o jornalista propõe-se desmascará-lo, contando com a ajuda não só da sua valorosa equipa, como da própria direcção da estação televisiva.
A ideia de Murrow é expor a verdade que está por detrás das ideias em que o Senador do Wisconsin baseia a sua famosa “caça às bruxas”. Efectivamente, McCarthy quer proteger os valores da Liberdade e Democracia da América face ao ataque e influência do comunismo. Mas, na realidade, o que faz é desvirtuar a defesa desses mesmos valores, usando-os para criar um clima de terror, de medo, de intriga, onde a denúncia e a conspiração espreitam a cada esquina. Murrow, com base em provas, constrói um programa absolutamente demolidor, ao qual o Senador responde acusando-o, claro, de ele ser…comunista. Só que a credibilidade de Murrow era enorme junto do público, o que, aliado a uma réplica fortíssima por parte do apresentador, tudo conduzirá, pouco depois, ao desaparecimento político de McCarthy.
George Clooney filmou “Boa Noite e Boa Sorte” a preto e branco, o que se revela uma ideia extraordinariamente feliz. Por um lado, uma vez que se apresentam dois lados opostos em confronto, o efeito binário do preto e branco acentua, ainda mais, essa dualidade. Mas, mais importante, é a opção pela ausência de cor faz mergulhar o espectador nos anos 50 do século passado, porque é a preto e branco que imaginámos aquele tempo ficcionado. Depois, há o jazz, os bares com fumo, os eternos cigarros a dançar entre os dedos, os gins e os martinis, elementos de um cocktail infinitamente cool…
Clooney não perde tempo com pormenores ou muitas histórias laterais. Tudo o que nos é mostrado é já a essência da história. Os diálogos e os discursos são fenomenais, quase parecendo prosa declamada… Tudo o que é dito pelas personagens é para ser lido e analisado com profundidade, especialmente o que fica nas entrelinhas. Mas George Clooney não se limita a construir uma boa história. Há opções que rasam a genialidade. Por exemplo, não há nenhum actor a interpretar Joseph McCarthy. O realizador optou por ir buscar as próprias imagens das tomadas de posição do senador e intercalá-las na acção, aumentando drasticamente a sensação de realismo.

É óbvio que este filme não surge por mero acaso em 2005. A América vive um período conturbado, com acusações de tentativa de manipulação e controlo por parte da Administração, como é o caso do avanço das teorias creacionistas nas escolas e a própria paranóia do terrorismo. O certo é que funciona, porque os mecanismos usados são os mesmos, quer do lado de quem quer calar, como de quem quer informar. Daí que “Boa Noite e Boa Sorte” seja, também, uma mensagem de alerta para uma América que parece ter a memória curta em relação ao seu passado recente.
Uma palavra para David Strathairn, a interpretar Ed Murrow. Leio que a composição da personagem está excelente, mas não faço ideia, pois nunca vi o verdadeiro jornalista. Agora, o que posso afirmar é que as suas expressões, o seu tom de voz intimamente relacionado com as suas palavras confirmam um excelente actor, dotado de raras qualidades interpretativas.
“Boa Noite e Boa Sorte” é um belíssimo filme, que apela ao público em geral e, ainda mais, a quem goste de jornalismo e comunicação. O poder concreto dos media, baseado em factos investigação e factos indisputáveis, é, como aqui se prova, um garante da Democracia. É claro que quando tal não funciona e se verifica a falsidade das acusações, a penalidade deveria ser arrasadora, mas isso não se verifica e, também, não é isso que aqui nos interessa… O mais importante deste filme é a afirmação da crença nas capacidades próprias da pessoa, de que quem acredita na bondade e virtude dos seus princípios e valores jamais terá medo de enfrentar qualquer adversário.
Dupont