terça-feira, abril 18, 2006

“Instinto Básico 2 /Basic Instinct 2”, de Michael Caton-Jones

A moda das sequelas disparatadas há muito que deveria estar extinta. Era um favor que faziam a quem gosta de cinema, já que é raro, muito raro, a continuação que consegue superar a obra-mãe. A degeneração é evidente, até porque é extremamente complicado conceber e produzir uma obra que tem um outro filme como colete de forças criativo.
“Instinto Básico 2” não é excepção e acaba por ser um recauchetar dos “clichés” da obra original. Está lá tudo: as corridas de carros, a passagem pela discoteca, as casas maravilhosas, ambientes sofisticados e “modernos” e, claro, esse cocktail fatal que tem o sexo e a morte como ingredientes. No fundo, o filme não passa de um veículo de promoção para Sharon Stone se pavonear, numa interpretação tão cabotina que lhe deve garantir um prémio nos próximos Razzie Awards… Só os seus diálogos, o tom de voz e a pose “matadora” já davam vontade de sair da sala, não fosse a expectativa voyeurista para um qualquer novo descruzar de pernas…
O argumento até surpreende, uma vez que está razoavelmente bem conseguido. A acção, agora, não se passa em São Francisco, mas em Londres. É uma nova centralidade cultural que parece estar a desenvolver-se - basta ver Madonna, Gweneth Paltrow ou Woody Allen… Mas voltando ao filme, Catherine Tramell continua a ser uma escritora de sucesso e, à volta dos seus livros, teimam em aparecer cadáveres, sempre com ligações umbilicais aos enredos da obra. Desta vez, em vez de transpor para a realidade o desfecho de um dos seus livros, Catherine opta por um verdadeiro “work-in-progress”, manipulando um psiquiatra a seu bel-prazer, sem ele verdadeiramente se aperceber que não passa de uma marioneta nas mãos daquela loira fatal.
Uma outra curiosidade prende-se com o facto de haver bastante menos cenas de sexo do que seria de esperar. Sharon Stone já tem 48 anos, mas bate muita teenager descadada que se espreguiça em praias de areia branca.... Aliás, para se comparar a elas, Miss Stone resolveu disfarçar o efeito da gravidade, injectando algum silicone nas suas protuberâncias mamárias. O resultado merece aplauso, diga-se… A interpretação, essa, é o oposto… Bem melhor estão David Morrissey, no papel do psicólogo obcecado com Catherine e, especialmente, a sempre elegante e charmosa Charlotte Rampling.
Mas o que falta em “Basic Instinct 2” é uma centelha de originalidade que pudesse dar alguma chama ao filme. A química entre Stone e Morrissey não existe. A simbologia nada tem de subtil e inteligente, como o facto do principal personagem masculino trabalhar no novo símbolo fálico de Londres, o Swiss Re ou “Erotic Gherkin” [Pepino erótico], como os londrinos o apelidaram, ou o virtuosismo com que Stone manuseia a manete de velocidades, num mais do que óbvio paralelismo entre aumento de velocidade e de nível de excitação… Como se não bastasse, a realização é do mais desastrado que se pode imaginar, sem o ritmo por que a acção clamava e sem a inteligência que um argumento deste género requeria.
Enfim, mais um produto de Hollywood feito sem pés nem cabeça, achando que o erotismo de há treze anos ainda carregaria muita gente para o cinema. Mas, hoje, o mercado de sexo está de tal forma disseminado que não chega um descruzar de pernas para chamar espectadores às salas, até porque têm isso tudo em casa, de graça e graças à internet.
Dupont