quinta-feira, abril 20, 2006

«L’Anatomiste», de S. Miquel, N. Tackian e L. Godart

Apesar da banda desenhada ser um área que adoro, tenho evitado abordar o assunto no blog, porque tratando-se de uma sub-cultura, os posts dificilmente teriam alguma receptividade.
Resolvi fazer uma excepção para “L’Anatomiste”, o melhor álbum de BD que li nos últimos tempos. Editado na colecção Latitudes, da Soleil, o livro conta a história, em flashback, de um médico cujo passatempo é estudar cadáveres. Tudo estaria bem se ele não se desse ao trabalho de escolher os corpos quando ainda estavam… vivos. Na sua tarefa conta com a ajuda de dois homens, miseráveis e sem escrúpulos. Mas tudo se precipita quando o “anatomista” deseja como vítima a grande paixão de um deles…
Nesta história, com desenho de S. Miquel, N. Tackian e argumento e cor de L. Godart, a loucura está presente, esteja ela escondida atrás de uma profissão reconhecida ou do coração de um homem simples… Mas o golpe de génio de “L’Anatomiste” está na discussão histórico-filosófica que perpassa nas conversas entre o médico e os seus amigos: o evolucionismo versus criacionismo, o homem de ciência contra o homem de fé (ou de crença…). É claro que o que ressalta para o leitor é a antítese comportamental do anatomista, que acredita que o homem é o resultado de uma evolução milenar desde o tempo em que partilhava o espaço com os animais, e o seu comportamento secreto, que relembra… o de um animal.
Quanto ao desenho, o traço de Luic Godart recria o ambiente soturno, pesado e terrível da Inglaterra vitoriana, onde cada sombra escondia sempre coisas terríveis. As faces das personagens são quase cadavéricas, algumas evocando, realmente, zombies. O uso da cor é feito de forma cuidada, oscilando entre verdes e laranjas, acentuando, assim, ainda mais, a sensação de horror. É raro estarmos perante um livro de banda desenhada que proporciona leituras tão diversas, e onde o aspecto gráfico está absolutamente integrado no enredo.
Está à venda na FNAC.
Dupont