segunda-feira, abril 03, 2006

Manual do Bom Português

Deve ser difícil encontrar um Ministro que em apenas um ano tenha coleccionado tanta asneira como Freitas do Amaral.
Efectivamente, foram muitas, mas as duas maiores foram a compreensão demonstrada para com os países árabes na questão dos cartoons e, agora, o problema com os portugueses expulsos do Canadá. Por iniciativa que se pressupõe ter pertencido ao Governo, com especial empenho de José Sócrates, Freitas do Amaral rumou para os lados da Terra Nova com ideias do Portugal velho. Aos jornalistas, esclareceu que “o Canadá estava a ser muito rigoroso na aplicação da Lei de Imigração”, o que é uma afirmação surpreendente para um catedrático de Direito, mas perfeitamente ajustada à mentalidade portuguesa, onde “dura led, sed lex” é uma frase apenas para engalanar fachadas de Tribunais. Aliás, nós somos um país que tem duas concepções de lei: uma mais apertada, em que se cumpre rigorosamente o que se estipulou no diploma legal e, outra, mais laxista, onde o facilitismo impera. Quando alguém mais exigente se lembra de escolher a primeira opção, desencadeia-se sempre um processo bastante mediático para depois não haver “desculpas”. Foi assim que tivemos essa pérola de prevenção que dá pelo nome de “Tolerância Zero”, foi ontem o enuncio que se iriam accionar criminalmente os autores de downloads ilegais e é o que acontece sempre que as Finanças se lembram de controlar as contas de um qualquer sector da economia. É quase como a “Guerra do Solnado”…
Depois, claro, há a história do coitadinho: os portugueses estão lá, tão sacrificados, coitados, que não mereciam esta triste sorte… Estão lá ilegalmente, mas isso não parece importar ninguém. É um pouco como os vendedores ambulantes – ilegais e sem qualquer licença – que mal chega a polícia desatam a lamuriar-se: “deixe-me trabalhar, deixe-me trabalhar”, como se a invocação desse actividade fosse assim como que gritar “santuário!” na Idade Média…Mas Freitas, na sua odisseia transoceânica, ao contrário do que sucedeu ao valoroso marinheiro na que deu nome a Lisboa, tapou os ouvidos às sereias que, no seu caso, lhe aconselhavam prudência. O ex-líder do CDS achou que havia chegado a sua hora de glória: ir ao Canadá meter uma cunha ao Governo local. Sim, porque não tenhamos dúvidas: o que Freitas lá foi fazer foi, simplesmente, pedir um favor ao Governo de Otava para que fechasse os olhos à deportação das quatro centenas de portugueses que lá se encontravam “sem papéis”… Não quis saber dos restantes 10.600 homens e mulheres de outras nacionalidades que o Canadá também expulsou e, muito menos, se lembrou da agora hipocrisia do SEF que faz a mesma coisa a cidadãos que até vêm de países de expressão portuguesa.
Numa altura em que a estrelinha de José Sócrates ostenta um brilhozinho assinalável, muito por via do “simplex” e de uma série de medidas avulsas que até parecem demonstrar que o Governo faz aquilo para que foi eleito, a actuação de Freitas do Amaral teve o efeito de um eclipse. A continuar assim, tenho sérias dúvidas que o nosso Ministro dos Negócios Estrangeiros consiga levar a sua missão até ao fim. Até porque António Vitorino, qual “Abel Maia” de José Sócrates, já tratou de esclarecer, no “Expresso”, o que todos sabemos: “o Canadá está a aplicar a sua lei
Dupont