terça-feira, abril 11, 2006

«North Country», de Niki Caro

A luta de uma mulher contra a forma como os seus colegas de trabalho a tratam e a indiferença perante isso da empresa onde todos trabalham é o mote de “North Country”.
A acção decorre em 1989, no Minnesota, numa zona de minas de ferro chamada “Mesabi Iron Range”, que Bruce Springsteen cantou em “Youngstown”. Ali, onde as gentes são tão duras como o chão que escavam, Josey vai buscar refúgio a casa dos pais, em fuga de um companheiro que a agride constantemente… Após um efémero emprego como cabeleireira, opta por ir trabalhar para as minas, onde se ganha seis vezes mais. A motivação de Josey é ganhar honestamente a vida, para suportar a sua família, composta por um adolescente e uma miúda em idade pré-escolar. Só que trabalhar na empresa não é fácil, com Josey constantemente a ser agredida, física e verbalmente, pelos colegas homens, o mesmo se passando com as colegas de trabalho. Após um calvário de insultos, ela resolve abandonar o emprego e processar a empresa e os colegas por assédio sexual no local de trabalho.
A apresentação da história não é linear. Ficamos logo a saber que estamos perante um caso que chegou a Tribunal, muito embora o espectador ainda pouco ou nada saiba sobre dele... Niki Cairo optou pela montagem paralela, alternando a vida de Josey com o desenrolar do drama na sala de audiências, onde se discute a admissibilidade do pedido e, ainda não, o julgamento final.
Baseado numa história real, do primeiro caso de assédio sexual no local de trabalho julgado em Tribunais Americanos, e de cujo desfecho as mulheres sairiam vencedoras em 1991, “North Country” mostra-nos a luta desigual de uma mulher contra os colegas de profissão e contra a empresa que a todos paga o ordenado. Mas é nas dificuldades que se vê o carácter das pessoas e o de Josey é enorme. Ele não quer tirar vantagem da sua situação, mas antes ser tratada com respeito e igualdade. O enxovalho brutal a que as mulheres da empresa eram sujeitas está para lá de qualquer tolerância. Mas ela aguenta até ao limite do humanamente possível, sempre com a ideia firme de proteger os filhos. As dificuldades encontra-as, também, cá fora. O pai é igualmente trabalhador na mina e oscila entre o amor pela filha e o receio de ser humilhado pelos colegas. As amigas não a apoiam com medo de perder o emprego e de as coisas piorarem. E o próprio filho chega a rotular a mãe de “puta”… Perante este cenário, só a determinação de Josey e do seu advogado conseguem levar a acção a bom porto…
“North Country” só peca por uma coisa, mal que afecta muito cinema americano: tenta ser demasiado moralista. A luta é dura e, no final, vencem o bons… Já tínhamos percebido, mas a realizadora não quer deixar dúvidas e, vai daí, trata de mostrar rios de lágrimas e momentos de catarse colectiva… Aliás, são estes momentos finais que roubem alguma classe a um filme que, até ali, seguia sóbrio e seguro.
A luta entre o indivíduo e o colectivo, já é velha no cinema, especialmente em casos de Tribunal. Estou a recordar-me de “Silkwood”, “A Class Action”, também um pouco de “Erin Brokovich” e, especialmente, de “Norma Rae”. Charlize Theron tem um desempenho diferente, mas extraordinário. Carinhosa, desiludida, confiante, perdida, o seu rosto mostra todos os matizes possíveis do espírito de uma mulher que abraçou uma causa. E, claro, nem coberta de fuligem consegue esconder os mais belos traços do cinema actual. Depois, há um bom naipe de actores secundários, alguns oscarizados como Francês McDormand e Sissy Spacek, mas também Sean Bean e Richard Jenkins, este que conhecemos como o pai da família de “Sete Palmos de Terra” e um tremendo character actor.
Dupont