segunda-feira, abril 24, 2006

«O Homem Secreto», de Bob Woodward

A história do escândalo “Watergate” já deu pano para mangas. Livros, são às centenas e o cinema também lhe prestou atenção, com “Os Homens do Presidente, de Alan J. Pakula, com Robert Redford e Dustin Hoffman, ou em momentos humorísticos, como em “Forrest Gump”.
Agora surgiu este “O Homem Secreto – a História da Garganta Funda do Caso Watergate”, assinado por Bob Woodward, um dos dois jornalistas do Washington Post responsáveis pela investigação. O outro foi Carl Bernstein, que deu o seu aval ao presente livro, na edição portuguesa da Quidnovi.
É curioso como pode ser tão interessante ler um livro cujo argumento já se conhece e jamais se perder o interesse. Woodward usa uma escrita jornalística, rápida e objectiva, transformando a leitura numa viagem alucinante, que se degusta em pouco tempo, atendendo até à pouco mais de centena e meia de páginas que medeiam entre a capa e a contracapa.
Como julgo que é do conhecimento de todos, “Garaganta Funda” era o nome dado ao informador que alimentou a polémica investigação do Post. Chegado ao consenso que teria de ser um alto quadro dos EUA, estabeleceu-se uma short list, onde vário nomes estavam incluídos, desde vice-presidentes a líderes das mais altas instituições americanas. Entre eles estava um tal de Mark Felt, vice-presidente do FBI, que já no século XXI desvendaria o mistério, ao anunciar publicamente ser ele o verdadeiro “Garganta Funda”.
Ao longo do livro, Woodward vai descrevendo um pouco de si, sempre na perspectiva de esclarecer como é que conheceu e como é que travou de amizade com Felt, tudo antes do escândalo ser conhecido. Como é óbvio, muito embora Woodward e Bernstein fossem jornalistas de excepção, nada aconteceria se a fonte não fosse largando, cirurgicamente, uma série de informações que levariam à queda de Richard Nixon. Aliás esta propriedade das fontes é defendida por Woodward, quando escreve que, sem elas, “a imprensa livre não conseguiria cumprir a sua função fundamental e constitucional”. Esta ideia, que é de aplaudir, conflitua, inúmeras vezes, com a ordem judicial e os jornalistas que se mostram fiéis às suas fontes acabam, por vezes, na cadeia… Aliás, e este caso perece-me ser desse estilo, há que saber, também, a motivação da fonte. Aqui, há um misto de desencanto com vingança, o que os jornalista souberam aproveitar com inteligência.
Um outro aspecto curioso, pelo menos para mim, é a percepção que, por vezes, se tem da passagem do tempo em casos famosos, como este. O “Caso Watergate” demorou meses e ocupou quilómetros de folhas de jornal. Não foi aquele acontecimento imediato, com um antes e um depois quase coincidentes, mas antes uma história bem longa e complexa. A prová-lo, está a história contada por Woodward, onde o leitor é confrontado com a narração de toda a espécie de intriga, traição, corrupção que, como todos sabemos, existe ao mais alto nível da política, o que demorou quase dois anos.
Já li “O Homem Secreto” há algum tempo, mas achei que teria alguma piada ser o último livro a ser recenseado aqui, n’O Vilacondense…
Dupont