segunda-feira, abril 10, 2006

PC


A notícia vinha na Sábado: “Os miúdos já não cantam como antes”. O conteúdo do texto prendia-se com o facto de, agora, as letras das crianças estarem adoptadas aos tempos actuais. Assim, onde havia agressividade passa a haver suavidade. Um exemplo;
Atirei o pau ao gato/mas o gato não morreu” passa a “Atirei o pão ao gato/mas o gato não comeu”.
Nem sei bem se isto é para rir ou para chorar… A paranóia do politicamente correcto leva a que tenhamos medo de assumir posições, de usar expressões ou palavras que possam ofender terceiros. Levada à letra, a coisa assume proporções medonhas. Sim, porque quem usar os substantivos e frases tradicionais é visto como um bronco e um troglodita que não se sabe comportar em sociedade.
Esta ditadura do PC que se continua a impor de forma absolutamente inacreditável, está a conseguir diminuir a capacidade crítica dos cidadãos, condenando-os a um entediante cinzentismo que não augura nada de bom. Porque não só condiciona quem se expressa, que perde metade do tempo e energia a verificar se o que diz estará ou não correcto, como anestesia quem ouve, que não encontra nem cor, nem alma nas palavras que lhe entram pelos ouvidos.
O exemplo que a Sábado apresenta sobre aquela canção infantil que todos conhecemos, é sintomática deste estado de coisas. Até pelo absurdo: atirar pão a um gato? E que mal é que tinha a versão original? Milhões e milhões de portugueses cantarolaram-na e não me parece que alguém andasse a atirar paus aos gatos para verificar a veracidade da letra… E as histórias infantis? O que é que vai acontecer ao Lobo Mau que come meninas e avozinhas? Não haverá aqui resquícios de pedofilia? Não sei, não… E aquela do beijo que a Bela dá ao Monstro para ele se transformar em príncipe não ecoa a acto sexual? E que dizer da Gata Borralheira que era mandada, ainda criança, para a cozinha? Trabalho infantil, sem dúvida!... Não será melhor criar um codex infantil e proibir as nossas crianças de ouvirem estas histórias horríveis? Que se lixe a capacidade de maravilhar, o medo fantástico do escuro, a imaginação galopante de quem acabou de se escutar uma história maravilhosa! Na verdade, o que estes seres bem-pensantes precisam é de umas sessões de psicoterapia para exorcizarem alguns fantasmas que ainda os assustam… Será que ainda tê medo do Lobo Mau porque ainda não tiveram coragem de escutar a história até ao fim e não sabem que os caçadores mataram a besta, abriram-lhe a barriga e tiraram de lá a Capuchinho e a Avozinha?
Dupont