quarta-feira, abril 12, 2006

«V de Vingança/V for Vendetta", de James McTeigue

De há uns anos a esta parte, e como já aqui n’O Vilacondense por diversas vezes fizemos referência, regista-se uma tendência para a Sétima Arte ir buscar inspiração à Nona… Na verdade, o número de filmes baseados ou inspirados na Banda Desenhada é crescente. Se, numa primeira fase, a ideia era dar vida a super-heróis, o registo tem sofrido algumas alterações, nomeadamente com o recurso a um nicho bem mais sério, o das graphic-novels. “V de Vingança” enquadra-se, precisamente, neste último caso, já que se refere à obra homónima assinada, entre 1982 e 1983, por esse génio que dá pelo nome de Alan Moore e desenhada por David Lloyd.
“V for Vendetta” é passado em 2020. O mundo sofreu alterações profundas: os EUA foram devastados por um vírus e a Inglaterra vive sob o domínio de um ditador, Adam Sutler, interpretado por John Hurt. O domínio de todas as facetas da vida dos cidadãos é a base desse poder, começando nas escutas da sua vida íntima e acabando no asfixiamento dos órgãos de comunicação social. É precisamente na televisão estatal BTN que trabalha Evey, uma jovem cujos pais foram torturados e mortos pela Polícia do regime. Um dia, quando regressava a casa, é apanhada por um grupo de homens que a tentam violar. É salva por uma misteriosa personagem mascarada, que assina “V”, e que se torna seu protector. Nessa noite, 5 de Novembro (“remember, remember, the fifth of November”…), V propõe-se dar início à libertação do país, começando por fazer explodir o edifício do ‘Old Bailey’, os Tribunais Criminais de Londres. Paralelamente, o herói mascarado elimina uma série de pessoas, homicídios que aparentemente sem nenhuma conexão, mas cujo puzzle a polícia tenta desesperadamente compor.
Não vale a pena estar a perder tempo, aqui, com a clássica discussão se o livro é melhor do que o filme, mas pode argumentar-se se a ideia que presidiu à graphic novel está, ou não, presente neste trabalho de James McTeigue. A resposta só pode ser negativa. Enquanto no livro o equilíbrio entre a vingança pessoal e a luta contra o regime ditatorial era patente, no filme fica-se com a sensação de que quase só existe motivação pessoal, para além de ser dado um muito maior destaque à personagem Evey.
Alan Moore criou “V de Vingança” em pleno thatcherismo, quando a esquerda inglesa anunciava que vinham aí tempos de autoritarismo. Hoje, a preocupação estará deslocada mais para o lado do terrorismo. Daí que a pergunta seja pertinente: rebentar com Tribunais e com a House of Parliament para combater um regime de ditadura é um acto legítimo ou de terrorismo? “V” é o salvador da pátria ou um Bin Laden com “boas” motivações?



A resposta não é fácil, mas parece claro que “V” é dos bons, usando métodos maus. A sua primeira inspiração – e daí a máscara – é Guy Fawkes, um louco que, no século XVII, pretendia fazer explodir o Parlamento britânico, num episódio que ficou conhecido por “A Conspiração da Pólvora”. Mas é claro que a personagem é um pot-pourri de muitas outras, como Batman e Zorro, além de, na própria história, se escutarem ecos de “O Fantasma da Ópera” e, claro, de obras críticas do totalitarismo, como “1984” e “O Admirável Mundo Novo”. Para quem conhece a obra de Alan Moore, isso não é novidade, bastando recordar “A Liga de Cavaleiros Extraordinários”, onde “ressuscita”, de uma assentada, o Capitão Nemo de “20.000 Léguas Submarinas”, Alan Quatermain de “As Minas de Salomão” e clássicos como “O Homem Invisível”, “A Ilha do Dr. Moureau”, “A Guerra dos Mundos” e “O Médico e Monstro/Dr. Jeckyll & Mr. Hyde”.
Se por isto já prometia, melhor ficou quando o argumento foi cair no seu equivalente cinematográfico: os irmãos Wachovsky. Efectivamente, os autores da trilogia “The Matrix” são igualmente peritos em construir histórias onde se cruzam referências filosóficas, históricas, religiosas e culturais.
Com isto tudo a favor, do lado do argumento, “V de Vingança” tinha tudo para ser um filme excepcional. Mas a verdade é que tal não acontece. A culpa não será dos actores, já que John Hurt e Natalie Portman estão irrepreensíveis e Hugo Weaving (o Agente Smith, de “Matrix”), como “V”, excede-se, até porque apenas trabalha a voz, fabulosa, e o corpo. Efectivamente, não chega a haver um “problema” com o filme. Tudo está bem e é de boa safra, incluindo a realização, serena e discreta, sem embarcar nas pirotecnias típicas de um blockbuster. “V de vingança” é um bom filme, sério, fugindo a clichés e reinventando muito do que de melhor tem a nossa pop culture, sem esquecer o aviso, sempre útil, sobre os perigos do totalitarismo. O todo é que não chega a deslumbrar, deixando, no fim, o espectador com uma ligeira sensação de insatisfação.
Dupont